Débora viveu no período dos juízes, período
da história de Israel cuja duração é incerta e fomenta muitas discussões entre
os estudiosos da Bíblia, que transcorreu entre a morte de Josué, após a
conquista da Terra, e a escolha de Saul como rei. Levando-se em conta que a
Bíblia afirma que o templo começou a ser construído 480 anos depois da saída
dos filhos de Israel do Egito, no quarto ano do reinado de Salomão(I Rs.6:1).
Assim, levando-se em conta que o êxodo durou 40 anos (Dt.2:7; At.7:36), que
Josué morreu com 110 anos (Jz.2:8) e deve ter entrado na Terra Prometida com
cerca de 80 anos (levando-se em conta o que diz Calebe em Js.14:10), o que
demonstra ter Josué governado cerca de 30 anos na Terra Prometida, bem como que
os reinados de Saul e de Davi duraram 40 anos (respectivamente At.13:21 e II
Sm.5:4), temos que o período dos juízes tenha tido uma duração de
aproximadamente 326 anos.
- O período dos juízes é um dos períodos de grande dificuldade
espiritual para o povo de Israel. O autor do livro dos juízes(a tradição
judaica atribui o livro a Samuel) narra toda esta dificuldade na passagem de
Jz.2:7-23, que é uma espécie de resumo do conteúdo de todo o livro, que, aliás,
não abarca todo o período dos juízes, vez que os governos dos dois últimos
juízes, Eli e Samuel, é narrado no Primeiro Livro de Samuel, em seus sete
primeiros capítulos.
- O primeiro problema deste período, afirmam-nos as
Escrituras Sagradas, foi a falta de educação doutrinária do povo nos seus lares. Em
Jz.2:7-10, é dito que, durante os dias de Josué e dos anciãos de sua geração, o
povo de Israel serviu a Deus, mas, enquanto seguiam o exemplo daqueles homens
que haviam conquistado a Terra Prometida, que haviam sido doutrinados por
Moisés pouco antes da morte deste, conforme vemos nos discursos do livro de
Deuteronômio, da geração que, após a conquista de boa parte da Terra, foi
levada a reafirmar o pacto com Deus por iniciativa de Josué (Js.24), não se deu
continuidade ao ensino da lei, como, aliás, havia sido determinado por Moisés
(Dt.6:6-9).
- A falta de um ensino doutrinário nos lares dos israelitas, a
ausência de uma educação bíblica dos pais aos filhos foi o primeiro fator que
levou Israel a viver um período tão difícil como foi o período dos juízes, um
período onde havia instabilidade espiritual, onde o povo permitiu que os
costumes dos povos que habitavam a terra se introduzissem no meio do povo de
Deus, um período em que a liberdade e o bem-estar foram exceção, verdadeiros
oásis num deserto de sofrimentos, opressões e domínio estrangeiro.
- Esta mesma circunstância, a propósito, vivemos nos
dias atuais na Igreja. Há uma grande negligência por parte dos pais no ensino
bíblico para seus filhos. Não há mais culto doméstico nos lares, não há mais
momentos de adoração a Deus, não há qualquer ensino das Escrituras nas casas
dos crentes. Pais e filhos pouco se conversam e servir a Deus em conjunto, no
lar, então, é uma raridade. O resultado é a instabilidade espiritual da igreja,
a introdução do mundanismo e o desvirtuamento de grande parte de nossas crianças,
adolescentes e jovens. Voltamos a viver o difícil tempo dos juízes.
- Sem educação, sem ensino, o povo desvia-se espiritualmente.
Como a geração que seguiu a dos conquistadores de Canaã “não conhecia ao Senhor
nem tampouco a obra que fizera a Israel”, “fizeram os filhos de Israel o que
parecida mal aos olhos do Senhor e serviram aos baalins”. O resultado da falta
de educação doutrinária no lar é um só: a mistura com o pecado e com o mundo, o
desvio espiritual.
- Esta situação foi uma constante durante todo o período dos
juízes. Como não havia educação doutrinária no lar, o que somente começou a se
alterar nos dias de Samuel, o último juiz, o povo crescia sem o conhecimento da
lei e partia para uma vida de pecado e de mistura com os costumes idolátricos
dos povos que antes habitavam a Terra Prometida.
- Surge, então, o segundo fator que caracterizou este período. O
fato de os israelitas não terem obedecido a Deus e ter deixado alguns cananeus,
heteus, heveus, amorreus, girgaseus, ferezeus e jebuseus, que antes habitavam
Canaã, fossem mantidos vivos após a conquista por parte de Israel. Deus havia
ordenado a completa destruição desta gente (Dt.7:1-5), mas os israelitas
preferiram receber tributos destes povos a destruí-los, o que foi objeto de
dura repreensão por parte do Senhor, ainda nos dias de Josué (Jz.2:1-6). O
resultado desta desobediência foi a criação de um laço que permitiu que Israel
sucumbisse ao pecado e à idolatria.
- Deus havia mandado que o povo exterminasse estes povos da
Terra por dois motivos: o primeiro, a injustiça destes povos havia chegado à
medida do limite da paciência divina (Gn.15:16); segundo, o povo tinha de se
manter separado das demais nações, pois era propriedade peculiar do Senhor
(Dt.7:6; Ex.19:5,6). Assim, Israel deveria cumprir a vontade de Deus,
executando a Sua justiça, como também impedir de se misturar com tão grandes
pecadores.
- No entanto, Israel não fez isto e, ainda nos dias de
Josué, Deus disse que não mais conseguiriam expelir aqueles povos do meio deles
e eles lhes seriam por laço, por verdadeira pedra de tropeço. A convivência com
estes povos, que eram mais adiantados do que os hebreus em vários aspectos (a
Bíblia, mais de uma vez, mostra que os povos tinham o domínio de uma tecnologia
que os israelitas não conheciam, notadamente no que respeita ao uso de metais – Jz.1:19; 4:3; I
Sm.13:10), levou os israelitas a se misturar com os seus costumes e com a sua
idolatria, perdendo a santidade e se tornando abomináveis ao Senhor
(Jz.2:13-15).
OBS: Por oportuno, devemos observar que a Bíblia dá conta desta
vantagem tecnológica dos povos que habitavam Canaã antes da conquista de
Israel, vantagem esta que também possuíam os filisteus, outro povo que veio
habitar a região. Assim, recentes descobertas arqueológicas, que dão conta
destas vantagens tecnológicas, estão a confirmar e não a negar o texto bíblico,
como se publicou equivocadamente na imprensa recentemente, mais precisamente na
edição 45 de História Viva (julho de 2007).
- Esta mesma situação vive-se atualmente no “Israel de
Deus”(Gl.6:16), ou seja, a Igreja, igualmente uma nação santa (I Pe.2:9), que
está no mundo, mas não é do mundo (Jo.17:11, 14,16) e, portanto, deve viver
separada do pecado, embora no meio dos pecadores. Infelizmente, muitos, assim
como os israelitas dos tempos dos juízes, não conseguem se manter separados,
santificados, misturando-se com o mundo e com o pecado, fazendo com que a ira
de Deus caia sobre eles, pois, não nos iludamos, Deus não mudou e a Sua ira
continua a se voltar contra os pecadores (Rm.1:18; Ef.5:6; Cl.3:6).
OBS: Sugerimos, a propósito, a leitura do famoso sermão do
pastor norte-americano Jonathan Edwards, “Pecadores nas mãos de um Deus irado”,
que, apesar de sua idade, foi proferido em 8 de julho de 1741, continua
extremamente atual. Para quem se interessar, este sermão pode ser lido, em
português, entre outros endereços, em http://www.monergismo.com/textos/advertencias/pecadores_maos_deus_irado.htm.
- Sem ensino e não tendo se separado dos povos idólatras à sua
volta, os israelitas, no tempo dos juízes, não reconheciam o senhorio de Deus
nas suas vidas e faziam o que bem entendiam, numa verdadeira anarquia.
“Naqueles dias, não havia rei em Israel, porém cada um fazia o que parecia reto
aos seus olhos” (Jz.21:25). Esta é a forma triste com que se encerra o livro
dos Juízes, resumindo o desgoverno em todos os aspectos daquele período. Sem a
lei do Senhor, o povo escolhido de Deus vivia numa verdadeira baderna, era uma
“casa da mãe Joana”. Que situação lamentável para uma nação que havia se
tornado a menina dos olhos de Deus entre os povos!
- De igual forma, esta é a situação em que fica a Igreja quando
abandona o seu Senhor e passa a fazer o que quer, amontoando doutores conforme
a sua própria concupiscência (II Tm.4:3,4). Uma confusão sem igual, uma
verdadeira “bagunça espiritual”, um local onde o inimigo “deita e rola”, “faz e
acontece”, como, aliás, bem nos esclarece o apóstolo Pedro (II Pe.3:12-22) e o
próprio Senhor Jesus (Lc.11:24-26). Vivemos dias em que alguns falsos servos de
Deus apregoam uma liberdade ilimitada na graça, uma suposta superioridade
espiritual que lhes permite fazer tudo o que bem entendem, chamando todos
aqueles que se lhes opõem de “legalistas”, de “ultrapassados”, de “fracos na
fé”. Entretanto, esta “liberdade” é anarquia, é fruto de uma vida pecaminosa,
totalmente comprometida com o mundo e que revela tão somente aquela mesma
filosofia de rebeldia contra Deus que encontramos nos tempos dos juízes,
atitude que apenas desperta a ira divina e nada mais. Afastemo-nos deste tipo
de gente antes que seja tarde demais (II Tm.3:5 “in fine”) !
- Uma quarta característica destes dias tão difíceis em que
viveu Débora era o sofrimento, o castigo divino. Por causa do pecado e da
desobediência, Deus, diante do Seu compromisso com Israel, permitia que o povo
passasse por dominação estrangeira, que sofresse a opressão do inimigo. Durante
todo este período, geração após geração, não houve uma geração sequer que não
tenha sido dominada por um povo estrangeiro. Nos dias de Débora, por exemplo,
eram os cananeus, sob a liderança de Jabim, com seus carros de ferro, quem
dominaram sobre os israelitas, durante um período de vinte anos (Jz.4:1-3).
- Deus permitia que o povo sofresse para que eles pudessem se
arrepender dos seus pecados. Na verdade, não fossem estas opressões, estas
gerações deste período teriam todas se perdido, mas, aprouve o Senhor permitir
que fossem oprimidas pelos inimigos, pois, assim, cada geração teve a
oportunidade de se salvar, tanto que, pelo que vemos da narrativa do livro dos
Juízes, todas elas, no sofrimento, voltaram-se para o Senhor e a Ele clamaram,
tendo Deus, em todas as vezes em que isto ocorreu, levantado libertadores para
povo, os juízes, que dão título ao livro.
- Temos, então, que o arrependimento dos pecados, no período,
deu-se apenas como reação ao sofrimento, ao castigo divino. Daí vermos que,
muitas vezes, somente o castigo divino permite a reconciliação com o Senhor,
motivo por que, apesar do castigo, devemos sempre ver que a punição é mais um
aspecto da bondade e do amor de Deus. Deus castiga porque ama, porque é Pai e
nos escolheu como Seus filhos (Hb.12:6-11). Ante a falta de educação bíblica no
lar e a ausência de santificação, não havia outra lição pedagógica para Deus
senão o castigo, senão o sofrimento. Que aprendamos isto, se quisermos evitar
sofrimentos e castigos ao longo de nossa jornada para o céu.
- Quando o povo se arrependia dos seus pecados, pedia perdão ao
Senhor e clamava por libertação, o Senhor, mantendo a Sua fidelidade, levantava
libertadores para libertar o povo (Jz.2:16,18). Deus jamais negou auxílio ao
Seu povo e, havendo arrependimento sincero, destrói todos os obstáculos e
concede a vitória aos Seus servos. Mas, para tanto, necessário se faz o
arrependimento, pois Deus não ouve a quem não abandona os seus pecados (Is.59:2).
Deus ainda inclina os Seus ouvidos para ouvir o gemido do Seu povo, continua o
mesmo, mas se faz necessário que nos santifiquemos. Estamos em condição de ser
ouvidos por Deus?
- Infelizmente, até os dias de Samuel, a libertação valia apenas
para aquela geração, pois se manteve a negligência no ensino bíblico, de sorte
que, num círculo vicioso, tudo começava novamente (Jz.2:19). Que Deus nos
guarde de cairmos neste círculo vicioso, até porque a nossa responsabilidade,
enquanto Igreja, é bem maior que a de Israel, pois, enquanto Deus falava aos
pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos, pelo próprio Filho
(Hb.1:1). “Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles
que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos
dAquele que é dos céus, a voz do qual moveu então a terra, mas agora anunciou,
dizendo: ainda uma vez comoverei, não só a terra, senão também o céu. E esta
palavra: ainda uma vez, mostra a mudança das coisas móveis, como coisas feitas,
para que as imóveis permaneçam. Pelo que, tendo recebido um reino que não pode
ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com
reverência e piedade, porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hb.12:25-29).
II – A BIOGRAFIA DE DÉBORA(I) – UMA MULHER PROFETISA E JUÍZA EM
ISRAEL
- Era este o estado de coisas na vida de Israel quando surge a
figura de Débora no texto sagrado. “Débora” (em hebraico, “Devorá”) significa
“abelha” e, segundo o site www.iremar.com.br, “…designa
uma pessoa que possui uma força de vontade excepcional. Ela luta com grande
determinação para alcançar seus objetivos. Embora muito cautelosa, quando confia em alguém se revela uma companheira
doce e amigável”
(http://www.iremar.com.br/index.php?q=d%E9bora&con=conexao&inc1=header&inc2=footer&banner=rodape&site=nomes
Acesso em: 27 jun. 2007).
- A Bíblia muito pouco fala sobre a vida de Débora. Surge ela,
no texto sagrado, pela vez primeira, em Jz.4:4 e, fora esta passagem histórica
do período de seu ministério, nada mais se fala sobre ela nas Escrituras.
Sabemos, apenas, que ela era profetisa, mulher de Lapidote (em hebraico,
“Lapidot”, cujo significado é “tochas”) e que julgava a Israel, entre Ramá e
Betel, nos montes de Efraim, o que nos dá a entender que era da tribo de
Efraim. Os estudiosos da Bíblia costumavam datar este período por volta de
1.120 a.C.
- Israel vivia um período difícil quando Débora aparece no
cenário da história sagrada. Depois da morte de Eude, o segundo juiz de Israel,
que os havia libertado do domínio de Eglom, rei de Moabe, o povo voltou a pecar
e a transgredir a lei do Senhor, prova de que os 80 anos de sossego dados pelo
Senhor (Jz.3:30), não forma suficientes para que o povo instituísse a
necessária educação doutrinária nos lares, mantendo uma vida negligente de
adoração a Deus. Nesse meio tempo, aliás, levantou-se um outro libertador em
Israel, Sangar, filho de Anate, que teve grande vitória contra os filisteus,
que ainda não haviam se tornado o principal inimigo de Israel (Jz.3:31).
- A situação de prosperidade fez com que o povo se esquecesse do
Senhor e, por causa disso, Deus permitiu que novo período de opressão (o
terceiro desde a morte de Josué) viesse sobre Israel. Desta feita, foram os
cananeus, sob a liderança de Jabim, que deles se fez rei, tendo à frente de seu
exército Sísera e reinando na cidade de Hazor, que conseguiu dominar os
israelitas, dominação que durou longos 20 anos. O povo, então, clamou ao
Senhor, pedindo por libertação (Jz.4:3).
- Apesar de sucinto, o texto bíblico muito nos fala a respeito
de Débora. Em primeiro lugar, afirma que “naquele tempo”, Débora julgava a
Israel. A ênfase do texto sagrado para indicar que era “naquele tempo”,
mostra-nos que Débora era uma pessoa totalmente diferente das pessoas de sua
geração. Não se sabe a idade de Débora, mas não era uma pessoa muito jovem.
Casada, julgando as causas do povo, Débora não devia ser senão uma mulher de
uma certa idade, a ponto de ser chamada de “mãe em Israel” (Jz.5:7). Assim,
tudo indica que nasceu e viveu boa parte do período de “80 anos de sossego”,
não tendo, porém, se deixado levar pelos costumes dos gentios.
- Débora não só não se deixou misturar com o pecado dos povos
que vivem no meio do povo de Israel, como também buscou de forma bem intensa ao
Senhor, a ponto de ser uma “mulher profetisa”. No texto sagrado, é a segunda
profetisa que surge, a primeira na Terra Prometida, pois a primeira que assim é
mencionada é Miriã, a irmã de Moisés (Ex.15:20). Esta busca a Deus em meio a um
povo corrompido demonstra a grande firmeza de caráter de Débora é o segredo de
sua coragem, a virtude que foi destacada pelo Setor de Educação Cristã para
nosso aprimoramento neste trimestre letivo da Escola Bíblica Dominical.
- A primeira qualidade de Débora que o texto sagrado destaca é o
fato de ser “mulher profetisa”, circunstância que vem antes até do nome do seu
marido, a demonstrar que, ante os olhos de Deus, mais valem as características
espirituais do que as obtidas sobre a face da Terra. Débora era uma “mulher
profetisa”, alguém que tinha se tornado porta-voz de Deus em meio a um povo
pecador e idólatra. Que firmeza demonstrou Débora para servir a Deus em meio a
uma geração perversa. Quantas lutas Débora enfrentou, quanto teve de renunciar
para se manter separada do pecado e do mundo. Mas tudo isto levou a pena,
porque Deus tinha uma comunhão toda especial com a Sua serva, fazendo-lhe Seu
porta-voz, pois, em sendo Débora profetisa, não havia segredos entre ela e Deus
(Am.3:7).
- Débora distinguiu-se no meio daquele povo pecador. Por ter
decidido servir a Deus, apesar de todas as circunstâncias adversas, mostrou ser
uma pessoa diferente e, pouco a pouco, o povo pôde perceber que ali estava uma
mulher de Deus, uma mulher onde habitava o Espírito Santo (numa época, aliás,
em que o Espírito estava sob medida, atuava limitadamente, não como hoje, em
que foi derramado). Não foi fácil obter este reconhecimento por parte do povo
de Israel. Além de se estar diante de um povo rebelde e pecador e que,
portanto, não tinha discernimento espiritual, Débora era uma mulher e, como
tal, alvo de todo o desprezo que a cultura hebraica devotava às mulheres, ainda
que, reconheçamos, eram os israelitas o povo que melhor tratava a mulher na
Antigüidade.
- Embora seja uma conseqüência do pecado a desigualdade de
tratamento que há entre homens e mulheres (Gn.3:16), e até por causa disto, não
pode o povo de Deus proceder com atitudes discriminatórias em razão do gênero.
Para Deus, não há acepção de pessoas (Dt.10:17; II Cr.19:7; At.10:34), de modo
que o Seu povo, que segue o Seu exemplo (I Co.11:1), não pode fazer qualquer
distinção entre homens e mulheres, a não ser as diferenças próprias de cada
sexo. Não há superioridade entre o homem e a mulher, devendo ambos ser tratados
igualmente na Igreja, cada qual na sua função, conforme determinado pelo
Senhor.
- Entre os israelitas, como também na Igreja, este tratamento
imparcial e sem acepção encontra grande resistência cultural. É sabido que,
apesar de a Bíblia ser clara ao dizer que tanto homem quanto mulher são imagem
e semelhança de Deus (Gn.5:1,2), até hoje há uma bênção judaica, proferida
diariamente, em que o judeu agradece a Deus por não ter nascido gentio, escravo
nem mulher. Tal bênção, que sempre causou grande dificuldade de explicação
entre os rabinos, não deixa de ser uma prova da resistência cultural, dos
resquícios da situação resultante do pecado.
- O texto sagrado demonstra que Débora era “mulher profetisa”,
ou seja, diante de Deus, não há acepção entre homem e mulher no que respeita ao
relacionamento com o Senhor. Débora decidiu servir ao Senhor em meio a uma
geração perversa e, com tal intensidade, que se tornou porta-voz de Deus. Era,
sim, u’a mulher, e o texto bíblico não omite esta circunstância, mas a sua
fidelidade a Deus foi tanta que, apesar de todas as circunstâncias culturais
adversas, pôde não só ser reconhecida como profetisa, mas, também, passar a
julgar o povo.
- Na sua dedicação a Deus, Débora passou a ter o discernimento
espiritual necessário para julgar as causas mais difíceis que havia no meio do
povo e, por isso, acabou se impondo como juíza em Israel. Não eram os homens
que reconheciam esta ou aquela pessoa como juiz, mas tudo era resultado de uma
vida de comunhão com o Senhor. Como vimos supra, era o Senhor quem levantava o
juiz, pois era Deus quem reinava sobre o povo, tanto que, quando o povo de
Israel pediu um rei, ato que pôs fim a este período, o próprio Deus disse ter
sido Ele o rejeitado e não, Samuel (o último juiz) (I Sm.8:7). O juiz
tornava-se notável, isto é, passível de ser notado como alguém que tinha o
Espírito de Deus, por causa de sua vida exemplar, de seu testemunho (cfr. I
Sm.3:19,20).
- Assim ocorreu com Débora, que passou a ser considerada pelo
povo como juíza em Israel por causa do seu testemunho e de sua vida espiritual.
No povo de Deus, devemos nos sobressair por causa do nosso testemunho, de nosso
atendimento ao chamado do Senhor e não o contrário, ou seja, alguém se impor
por causa de seu parentesco, de seus relacionamentos de amizade para só depois
buscar a presença de Deus. Por causa disto há muitos escândalos e muitos
fracassos no meio do povo do Senhor, mas, sem olharmos para os valores humanos,
busquemos ter discernimento espiritual para vermos quem são os “profetas”, quem
são os chamados do Senhor para esta ou aquela tarefa no meio do Seu povo, pois
a Igreja é um povo guiado pelo Espírito Santo (Jo.14:26; Rm.8:14).
- O fato de Débora ser chamada no texto de “mulher profetisa” e,
logo a seguir, ser dito que era “mulher de Lapidote”, também nos revela algo
muito importante: o fato de Débora ser uma profetisa, ter sido elevada a juíza
de Israel, não alterou a sua posição na sociedade. Débora alçara uma posição
que jamais uma mulher havia obtido e que jamais viria a obter novamente na
história de Israel daquele período. No entanto, isto não modificou a sua
qualidade de “mulher” e de “mulher de Lapidote”. A igualdade diante de Deus não
significa igualitarismo, ou seja, a idéia de que “todos são iguais”, muito
divulgada em os nossos dias. Homem e mulher são iguais diante de Deus, mas são
diferentes, aliás, não há um ser humano igual a outro sobre a face da Terra.
- Débora não havia deixado de ser “mulher”, nem de ser a “mulher
de Lapidote”, ou seja, mantinha sua condição de mulher e, como tal, com deveres
e funções diferentes da dos homens e das de seu marido. Débora não era uma
“feminista”, que defendia que as mulheres são iguais aos homens e que não há
qualquer diferença entre os dois gêneros. Débora é um exemplo de que, diante de
Deus, não há acepção de pessoas, mas que cada um mantém a sua individualidade,
individualidade esta que deve ser respeitada e, mais, que homem e mulher são
diferentes, tendo atividades e funções peculiares a cada gênero.
- O texto sagrado diz que Débora foi levantada como “mãe” em
Israel. Ora, somente uma mulher poderia ser “mãe”. Esta é mais uma demonstração
de que a igualdade diante de Deus, o tratamento imparcial que se deve dar a
todo ser humano, sem discriminação, não significa deixar de reconhecer as
diferenças que existem entre os gêneros e as funções distintas que só um gênero
pode exercer.
III – A BIOGRAFIA DE DÉBORA(II) – O CHAMADO PARA A BATALHA E O
CÂNTICO DA VITÓRIA
- Tanto assim é que Débora, embora fosse juíza em Israel, chamou
a Baraque, filho de Abinoão, de Quedes de Naftali, para que comandasse o povo
de Israel na guerra contra Jabim. Por que Deus mandou que Débora chamasse
Baraque, se era ela a profetisa e a juíza em Israel? Porque o comando militar não
era adequado nem apropriado para u’a mulher como Débora, já de certa idade e
cuja condição de mulher não lhe permitia dirigir uma guerra. Temos aqui,
portanto, uma clara demonstração que contesta tanto as “feministas” como os
“machistas”.
- Como é bom quando somos guiados por Deus, o único ser que
conhece a estrutura de cada um (Sl.103:14), o único que conhece o coração de
cada ser humano (I Sm.16:7; Jo.2:25). Débora, por ser guiada pelo Espírito de
Deus, pôde saber quem era o homem mais valoroso, mais adequado para liderar a
guerra contra Jabim, cujo exército, diz-nos o texto sagrado, era extremamente
bem equipado, com carros de ferro, que o fazia praticamente imbatível naquele
tempo. Débora, vivendo nos montes de Efraim, não tinha, a não ser pelo Espírito
de Deus, saber que um homem de Quedes de Naftali seria o ideal para o comando
da peleja, mas Deus, que cuida do Seu povo e sabe as qualidades de cada um,
pôde fazer esta indicação.
- Débora não queria ir à batalha. Sabia que não tinha condição
nem preparo para liderar uma guerra. Por isso, sabendo que esta era uma típica
função masculina, guiada pelo Espírito de Deus, chamou a Baraque, que foi tão
somente o comandante do exército de Israel e não juiz, como alguns israelitas
“machistas” insistem em afirmar ao escreverem a história sagrada.
- Débora convoca Baraque e diz que ele deveria atrair gente de
Naftali e de Zebulom, dez mil homens, no monte Tabor, para a batalha contra as
tropas de Sísera, a ser travada no ribeiro de Quisom. Em primeiro lugar,
devemos observar que se exigiu de Baraque que “atraísse gente”, a sua própria
gente, a gente da tribo de Naftali, bem como a tribo vizinha de Zebulom.
Deveria ser uma forte atração, pois estes dez mil homens deveriam ser reunidos
no monte Tabor, “…uma colina de certa proeminência, localizada cerca de 16 km a
sudoeste do mar da Galiléia, no vale de Jezreel. Chega a 562m de altitude,
acima do nível do mar. Suas vertentes são muito inclinadas, e em vários lugares
da ascensão, divisam-se paisagens espetaculares.…” (Russell Norman Champlin, Dicionário
de Bíblia, Teologia e Filosofia(São Paulo: Hagnos, 2001), v.4,
p.353).
- Esperava-se de Baraque, portanto, que tivesse grande “poder de
atração” , pois deveria convencer cerca de dez mil homens, num período de uma
cruel opressão, com inimigos muito bem armados, a subir um monte, cuja subida
era difícil, aos olhos do adversário, ou seja, que houvesse uma disposição
firme para lutar, pois só a reunião já seria considerado um ato de guerra por
Jabim e Sísera (cfr. Jz.4:12,13). Esta disposição firme era a coragem, não só
de Baraque, mas de todos os soldados que viessem a ele.
- É interessante observar que, para demonstrar coragem, o povo
deveria subir até o monte Tabor (que, pela tradição, é apontado como tendo sido
o monte da Transfiguração), ou seja, mostrar-se a todos como pessoas dispostas
a lutar contra o inimigo. Temos tido este mesmo propósito em nossas vidas?
Jesus disse que somos a luz do mundo e não se pode esconder uma cidade
edificada sobre um monte (Mt.5:14). Neste mundo, devemos resplandecer como
astros no mundo num meio de uma geração corrompida e perversa (Fp.2:15).
- Exigia-se, pois, de Baraque e de todos os que se juntassem a
ele a mesma postura que Débora tinha tido até ali. Por ser fiel a Deus e não
ter se contaminado com o pecado dos povos à sua volta, Débora tinha se tornado
uma profetisa e juíza em Israel e, agora, como o povo havia se arrependido dos
seus pecados e clamado a Deus, fazia-se necessário que, também, fossem eles
corajosos o suficiente para romper com o pecado e “subir o monte Tabor”,
demonstrar disposição firme de romper com o pecado, com o mundo, com o inimigo.
- Baraque estava disposto a fazê-lo, mas disse que se Débora não
fosse com ela, não iria (Jz.4:8). Aqui vemos um outro motivo pelo qual Débora
estava a julgar a Israel naquele tempo. Não havia homem algum disposto a
assumir, sozinho, o comando para libertar Israel. Baraque fora escolhido por
Deus como comandante porque era o indivíduo mais corajoso, o mais valoroso de
todos os homens de Israel. Se ele não se mostrava a disposto a ir sozinho, sem
a companhia de Débora, temos que nenhum homem, naquele tempo, tinha tal
disposição. Todos os homens eram “frouxos” e, como nos ensina Salomão, “se te
mostrares frouxo no dia da angústia, a tua força será pequena” (Pv.24:10).
- A ascensão de Débora à posição de juíza em Israel está
relacionada com a “frouxidão”, a “fraqueza”, a “vacilação” dos homens de seu
tempo. O homem mais valoroso, que era Baraque, era “fraco”, estava “vacilante”,
não demonstrava “firmeza”, mesmo tendo sido convocado pela profetisa, por
alguém que tinha plena comunhão com Deus. Como não havia homens dispostos a ser
firmes na Sua presença, Deus levantou u’a mulher para este papel.
OBS: A palavra hebraica utilizada em Pv.24:10 é “raphah”, cujo
significado é “relaxar”, “enfraquecer”, “sucumbir”, ou seja, a idéia
nitidamente é de enfraquecimento, de perda de firmeza, de falta de coragem.
- Débora fora levantada como “mãe em Israel” porque não havia
homem algum disposto a ser corajoso, porque faltavam homens firmes e Deus não
Se prende ao homem e às suas limitações para cumprir os Seus compromissos. Deus
tinha um pacto com Israel e, por isso, mister se fazia levantar um libertador
para o povo. Como não havia homem disposto, Deus levantou u’a mulher.
- Originariamente, o homem foi posto como cabeça da mulher (I
Co.11:3), mas se ninguém se puser na brecha (Ez.22:30), Deus levantará
mulheres, pois a Sua obra tem de ser realizada. Isto ocorreu não só na história
de Israel, como na história da Igreja, onde, por diversas vezes, o Senhor, ante
a inoperância masculina, levantou mulheres para exercer funções que, a
princípio, eram destinadas aos homens. Assim é que, por exemplo, o “movimento
de santidade”, base do avivamento pentecostal, teve como figuras proeminentes
as pessoas de Sarah Worrall Lankford , Phoebe Palmer (1807-1874) e de Hannah
Whitall Smith (1832-1911), sem falar na figura importante de Frida Vingren
(1891-1940), esposa do missionário Gunnar Vingren e cuja atuação foi de extrema
relevância na história das Assembléias de Deus no Brasil.
- O compromisso de Deus é com o Seu povo e a Sua Palavra e, para
tanto, busca homens e mulheres dispostos a fazer a Sua obra. Se os homens se
mostrarem “frouxos”, o Senhor levantará mulheres, ainda que em funções que, a
princípio, seriam destinadas aos homens. Débora é um exemplo e, por isso, foi
ela para a batalha, embora o comando estivesse com Baraque e, também por causa
disso, u’a mulher, Jael, foi a responsável pela morte de Sísera e, por isso, a
honra por esta vitória militar ficou com as mulheres e não com os homens.
- Baraque deveria atrair gente para o monte Tabor, mas a batalha
se daria no ribeiro de Quisom, ao pé do monte Carmelo, para onde o Senhor
atrairia Sísera e seu exército (Jz.4:7). Enquanto que, para demonstrar
disposição para a luta, deveriam os valentes se apresentar no monte, para a
batalha, escolheu-se um vale. Devemos nos mostrar como luzes do mundo, mostrar
a todos que somos servos do Senhor, mesmo num meio de uma geração perversa e
corrompida, mas, no dia-a-dia da luta contra o mal, nos embates, devemos descer
no vale, no ribeiro, para que só o nome do Senhor seja glorificado. O servo do
Senhor não deve querer aparecer, mas ter, em seu coração, sempre as palavras do
Batista: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua”(Jo.3:30). Baraque só
venceu quando, juntamente com seus soldados, desceu do monte (Jz.4:14).
- Ser corajoso, com se vê, é se manter firme aos pés do Senhor,
mostrar-se diante do inimigo, mas jamais atacar ou lutar sem a devida direção
divina. Baraque deveria lutar somente após o Senhor ter atraído o inimigo até o
ribeiro de Quisom. Devemos, também, nas lutas de cada dia, somente atacar
quando e onde o Senhor nos mandar. Resistir ao diabo para que ele fuja de nós
exige, antes, que nos sujeitemos a Deus, que sigamos a Sua orientação (Tg.4:7).
Jesus, quando enfrentou o diabo, fê-lo porque estava conduzido pelo Espírito
Santo (Mt.4:1).
- A vitória de Baraque esteve vinculada à obediência com relação
ao momento e ao local indicados pelo Senhor para a batalha. Baraque somente
desceu do monte Tabor com seus homens quando Débora lhe disse que era aquele o
dia em que o Senhor havia determinado a vitória sobre o inimigo (Jz.4:14).
Devemos saber que há um tempo determinado para todo propósito debaixo do céu
(Ec.3:1) e devemos estar em perfeita sintonia com o Senhor, para fazer a Sua
vontade. Por isso, devemos ter comunicação com Ele, comunicação esta que
somente se estabelece mediante a oração, o jejum e a meditação na Bíblia
Sagrada. Não é por outro motivo que o Senhor nos ensinou a orar pedindo que a
vontade de Deus seja feita na terra como no céu (Mt.6:10).
- Quando Baraque obedeceu ao Senhor e desceu até o ribeiro de
Quisom, tem-se que o Senhor agiu, pois, como bem sabemos, embora tenhamos de
estar preparados para a batalha, a vitória vem do Senhor (Pv.21:31). A vitória
militar era impossível aos olhos humanos, diante da superioridade do exército
de Sísera, mas, quando Baraque desceu para o ribeiro de Quisom, este,
inexplicavelmente, inundou a região, fazendo com que os carros de Sísera se
tornassem um entrave e se criasse uma confusão que foi suficiente para que
Baraque pudesse ter vantagem sobre o inimigo (Jz.5:21,22).
- Deus tinha compromisso com o Seu povo, tinha de libertá-lo,
mas, para tanto, era preciso que o povo se dispusesse a servi-lO, seja se
arrependendo dos seus pecados, seja se dispondo a ir para a batalha. Por isso,
Débora, em seu cântico, que é um dos mais antigos textos conhecidos em
hebraico, afirma, em primeiro lugar, que se deveria louvar a Deus porque os
chefes haviam se posto à frente e o povo se oferecido voluntariamente (Jz.5:2).
- Mas, como havia sido dito por Débora, apesar da vitória cabal
conseguida pelo exército de Baraque, Sísera conseguiu fugir e acabou sendo
morto por Jael, mulher de Heber, que era queneu, ou seja, descendente do sogro
de Moisés, Jetro, povo que veio morar juntamente com os israelitas desde aquele
tempo. A honra pela vitória militar, portanto, ficou com uma mulher.
- No cântico em que Débora louva ao Senhor pela vitória, cântico
que, como toda obra do gênero no Antigo Testamento, é, na verdade, uma mensagem
inspirada pelo Espírito Santo, Débora nos mostra que, enquanto Baraque atraíra
os soldados das tribos de Naftali e de Zebulom, a profetisa conseguira o apoio
das tribos de Efraim, Benjamim e da meia tribo de Manassés (Maquir, nome do
filho de Manassés) e Issacar.
- Entretanto, a meia de tribo de Manassés, que ficava do outro
lado do Jordão, Ruben, Dã e Aser não ajudaram na peleja, preferiram manter-se
sob a escravidão. A profetisa, em nome do Senhor, censura este povo, que,
lamentavelmente, tipifica muitos que, na atualidade, preferem se manter sob o
domínio do mal e do pecado a se dispor voluntariamente a lutar contra o
inimigo.
- Ruben ficou discutindo se ajudaria, ou não, e, enquanto
discutiam, a peleja ocorreu, sem que eles tivessem ajudado. Ruben é o modelo
dos indecisos, dos tímidos, daqueles que, por terem receio no seu coração,
mostram-se fracos. Estes, como afirma o poeta sacro, não receberão o eterno
galardão que o Senhor tem para dar, pois os tímidos ficarão do lado de fora da
cidade celestial (Ap.21:8). Jesus repreendeu este tipo de gente, porque não têm
fé (Mc.4:40) e, sem fé, é impossível agradar a Deus (Hb.11:6).
- Dã, a meia tribo de Manassés e Aser, por sua vez, em vez da
indecisão de Ruben, preferiram desfrutar do que ainda possuíam a se arriscar
ante o poderoso inimigo. “Detiveram-se em navios”, “assentaram-se nos portos do
mar e ficaram nas suas ruínas”. Estes tipificam aqueles que preferem as bolotas
que se atiram aos porcos, as ilusões deste mundo a tornarem a Deus e a se
arrependerem dos seus pecados. Encontram-se presos em suas concupiscências e,
em virtude disto, amam mais a glória dos homens do que a glória de Deus
(Jo.12:42,43). Não querem ser expulsos da sinagoga e, por causa disto, não
entrarão no céu. O verdadeiro e genuíno servo de Deus, porém, não busca a
glória dos homens (I Ts.2:6), seguindo mais este exemplo do Senhor Jesus
(Jo.5:41).
- Também foi alvo de censura pela profetisa a cidade de Meroz,
localizada na tribo de Naftali, próxima a Quedes, cidade de Baraque, que, ao
contrário dos demais naftalitas, não compareceu para a batalha, demonstrando,
assim como as demais tribos, covardia e desatendimento ao chamado do Senhor
(Jz.5:23). Meroz foi acremente amaldiçoada, ou seja, duramente amaldiçoada.
Esta maldição mostra-nos como é grave e sério desatendermos ao chamado do
Senhor, desprezarmo-lO. Como diz o escritor aos hebreus, “…mas o justo viverá
da fé e, se ele recuar, a Minha alma não tem prazer nele” (Hb.10:38). Temos
atendido ao chamado do Senhor para a batalha contra o mal? Ou temos preferido
ver os outros lutar como o povo de Meroz?
- Débora, em seguida, no seu cântico, abençoa Jael e as
mulheres, pela disposição demonstrada na batalha, pela forma como habilmente
“rachou a cabeça” do inimigo, não dando a mínima chance, a mínima brecha para
que ele pudesse subsistir. A bênção foi estendida também a todos os que amam o
Senhor (Jz.5:31). Quem ama a Deus? Aquele que faz o que Ele manda (Jo.15:14).
Somos alcançados por esta bênção divina feita pela boca de Débora?
- Neste cântico, Débora mostra que era uma mulher de Deus, que o
Espírito Santo nela repousava, que se tratava de uma pessoa despertada para as
coisas de Deus (Jz.5:12), que não temia falar a verdade e que nem a vitória
impedia de considerar as falhas e os acertos de cada um. Era uma mulher com
amplo discernimento espiritual e responsabilidade e que sabia bem delinear as
responsabilidades de cada um. Por isso, tinha condições de julgar Israel, pois
agia com imparcialidade, retidão e justiça.
- Como é diferente o tempo em que vivemos, onde os líderes nem
sempre agem sem acepção de pessoas, com retidão e justiça, onde o favoritismo,
infelizmente, é uma tônica e um modo de ação característico daqueles que estão
à frente do povo de Deus. Que possam eles aprender com Débora que, sem
titubear, e sob a inspiração do Espírito Santo, pôs tudo no seu devido lugar,
enaltecendo aqueles que, efetivamente, cumpriram os desígnios divinos e
repreendendo aqueles que não se conduziram bem na luta contra o inimigo. É esta
a função de quem está à frente do povo do Senhor, é esta a função de apascentar
as ovelhas: usar da vara e do cajado para que todos os santos possam se
aperfeiçoar e chegar à estatura de varão perfeito, à medida de Cristo.
IV – DÉBORA – A “ABELHA” MÃE EM ISRAEL
- Neste ponto, aliás, vemos que o nome de Débora, ou seja, “abelha”,
tem muito a nos ensinar sobre a personalidade desta mulher, sobre o que a
Bíblia pouco fala. Como se sabe, a abelha é uma das criaturas mais
impressionantes sobre a face da Terra, cuja organização social é uma lição que
devemos aprender sempre.
- A abelha é enaltecida nas Escrituras por causa de sua
organização social. A abelha é um animal que vive em sociedade, cuja
sobrevivência é impossível de modo isolado. Elas vivem em colônias, as
“colméias”, que têm cerca de 80.000 abelhas, todas elas guiadas por uma única
rainha, que é a única abelha fêmea com capacidade de reprodução. Não é possível
mais de uma abelha rainha em uma colméia e, se, porventura, nasce mais de uma
ao mesmo tempo, elas lutam entre si até que uma morra. A unidade é o elemento
que as Escrituras mais ressaltam nas abelhas (Dt.1:44; Sl.118:12).
- Esta unidade da colméia ensina-nos muito, no sentido
espiritual. Débora, a abelha que Deus levantou em Israel, fez o povo
compreender que deveria servir única e exclusivamente ao Senhor. No povo de
Deus, temos, assim, uma verdadeira “colméia”, porque “há um só corpo e um só
Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um
só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre
todos, e por todos, e em todos”(Ef.4:4-6).
- Débora demonstrou a importância da unidade quando determinou a
Baraque que atraísse as pessoas a si, a fim de que houvesse sucesso na batalha,
como também quando, em seu cântico, censurou duramente a tribo de Ruben que,
por estar dividida na discussão, não pôde lutar contra o inimigo. O próprio
Senhor Jesus ensinou que “Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e
toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mt.12:25). O
apóstolo Tiago afirma que a situação espiritual da indecisão é desastrosa
(Tg.1:6-8).
- Mas, além da unidade, as abelhas ensinam-nos a disposição para
o trabalho. A quase totalidade da colméia é formada das chamadas “abelhas
operárias”, abelhas sem capacidade de fecundação, que trabalham diuturnamente e
cujo trabalho é indispensável para a sobrevivência da colméia. Das 80.000
abelhas de uma colméia, exceto a rainha e algumas centenas de zangões (abelhas
macho, cuja função é tão somente fecundar a abelha-rainha), as demais são
“operárias”, visitando cerca de 10 flores por minuto, num total de 40 vôos
diários, numa vida que dura, em média, um mês e meio.
- As abelhas vivem para trabalhar e este trabalho é a razão de
sobrevivência da colméia. “…Com a língua, as abelhas recolhem o néctar do fundo
de cada flor e o guardam numa bolsa localizada na garganta. Depois voltam à
colméia e o néctar vai passando de abelha em abelha. Desse modo, a água que ele
contém se evapora, ele engrossa e se transforma em mel.…” (Abelha. Disponível
em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Abelha Acesso em: 28 jun. 2007). No seu trabalho,
a abelha retira o néctar das flores e produz o mel, mediante a colaboração de
cada abelha. Assim, também, a Igreja, em seu trabalho, deve produzir não o mel,
mas algo mais doce que o mel: a Palavra de Deus (Sl.119:103). A Igreja tem a
missão de pregar o Evangelho, levar a Palavra de Deus ao mundo. Débora, no seu
tempo, era a porta-voz de Deus ao Seu povo. Temos sido “abelhas operárias” do
Senhor?
- Outra nota sobre as abelhas diz respeito ao sistema de defesa
das abelhas. “…A abelha operária (ou obreira), preocupada com sua própria
sobrevivência e encarregada da proteção da colméia como um todo, tem um ferrão
na parte traseira para ataque em situações de suposto perigo. Esse ferrão tem
pequenas farpas, o que impede que seja retirado com facilidade da pele humana.
Quando uma abelha se sente ameaçada, ela utiliza o ferrão no animal que estiver
por perto. Depois de dar a ferroada, ela tenta escapar e, por causa das farpas,
a parte posterior do abdômen onde se localiza o ferrão fica presa na pele do animal
e a abelha perde uma parte do intestino, morrendo logo em seguida. Já ao picar
insetos, a abelha muitas vezes consegue retirar as farpas da vítima e ainda
sobreviver.…” (Abelha. end.cit.).
- Aqui também temos uma importante lição. A abelha, se utilizar
o ferrão contra algum animal que tenha pele, morrerá por causa do uso do
ferrão. Somente usa o ferrão quando está ameaçada, mas, como o ferrão tem
várias farpas, parte do seu intestino sai com o ferrão e, por isso, ela acaba
por morrer. De igual maneira, o servo de Deus não deve “ferroar” “animais que
têm pele”, ou seja, não deve indispor-se, machucar o próximo, pois, se o fizer,
certamente morrerá, pois tirará de dentro de si (o intestino representa aqui a
parte interior do homem) o amor que foi derramado pelo Espírito Santo em nossos
corações quando de nosso novo nascimento. Sem amor, sem ter como amar, não
seremos mais filhos de Deus, teremos morrido espiritualmente (I Jo.4:8-16).
- Débora não utilizou o ferrão contra o próximo. Dedicava-se a
Deus e clamava pelo povo que havia se desviado espiritualmente e o Senhor lhe
fez dar a chave para a libertação, através de Baraque e da batalha de Quisom.
Débora conclamou as tribos de Israel a irem para a peleja, sem levar em conta
que eram pecadores e que se haviam desviado dos caminhos do Senhor. Débora
amava o seu povo e queria a sua libertação. O Senhor usou o Seu ferrão contra o
inimigo, através das águas de Quisom, tendo Baraque e seus soldados agido de
acordo com a orientação divina, o “ferrão contra os insetos”, que não causa
morte, visto que viver é seguir e observar os mandamentos do Senhor (Lv.18:5;
Mt.4:4).
- Mas, ainda em relação à abelha, temos que “…a rainha é quase
duas vezes maior do que as operárias e sua única função do ponto de vista
biológico, é a postura de ovos, já ela é a única abelha feminina com capacidade
de reprodução. A rainha nasce de um ovo fecundado, e é criada numa célula
especial, diferente dos alvéolos hexagonais que formam os favos. Ela é criada
numa cápsula denominada realeira, na qual é alimentada pelas operárias com a
geléia real, produto riquíssimo em proteínas, vitaminas e hormônios sexuais. A
geléia real é o único e exclusivo alimento da abelha rainha, durante toda sua
vida. E a partir do nono dia, ela já esta preparada para realizar o seu vôo
nupcial, quando, então, será fecundada pelos zangões(…). A rainha voa o mais
que pode e é fecundada pelo macho que conseguir ir ter com ela.…” (Abelha.
end.cit.).
- Débora era uma verdadeira “abelha-rainha” no meio do povo de
Israel.Voara mais alto que os demais. Enquanto os homens e mulheres israelitas
mergulhavam mo lamaçal do pecado, Débora caminhava rumo ao alto, para ter mais
intimidade com o Senhor. Pensava nas coisas de cima (Cl.3:1,2), tanto que é
identificada como a “mulher profetisa”, antes mesmo de ser chamada de “mulher
de Lapidote”.
- O servo do Senhor deve ser alguém que pensa nas coisas que são
do céu. Não deve ter sua mente voltada para as coisas desta vida, nem o seu
tesouro pode estar situado nesta terra, pois, se assim proceder, não poderá
subir para o céu no dia do arrebatamento da Igreja. Débora era assim, uma
mulher que tinha prioridade nas coisas do céu e, por causa disto, até, foi
levantada como juíza por Deus. Assim deve proceder o crente: buscar o reino de
Deus e a sua justiça, a fim de que tudo o mais seja acrescentado.
- Mas, além disso, temos que a “abelha-rainha” é a única fêmea
com capacidade de reprodução na colméia. Somente ela dá origem a novas abelhas
e ninguém mais. Isto nos fala que somente o servo de Deus pode frutificar neste
mundo estéril, pois só ele tem a vida eterna. Devemos frutificar e nosso fruto
deve ser permanente.
- O servo do Senhor é um ser fecundo, que produz o fruto do
Espírito, que frutifica como determinado pelo seu Criador (Gn.1:28), que tendo
recebido a semente, por ser uma boa terra, muito fruto produz para a glória de
Deus (Mt.13:23; Jo.15:16). Débora não só buscou a Deus, não só tinha mensagens
para o povo, como também foi importantíssima para que o povo tivesse a necessária
disposição, a coragem indispensável para enfrentar o inimigo e vencê-lo. Débora
conseguira, assim, obter para o povo um sossego de quarenta anos (Jz.5:32).
Temos conseguido trazer o repouso para os homens e mulheres que estão à nossa
volta? Temos conseguido levar a paz do Senhor para aqueles que nos cercam, como
nos manda o Senhor em Mt.10:12,13?
- A “abelha-rainha”, também, tem apenas um tipo de alimento: a
geléia real, que é produzida pelas abelhas operárias. Isto nos lembra que o
servo de Deus deve ter apenas um único alimento: o cumprimento da Palavra de
Deus, o pão que desceu do céu. “A minha carne verdadeiramente é comida, e o meu
sangue verdadeiramente é bebida”, disse o Senhor Jesus (Jo.6:55). Não falava o
Senhor de Seu corpo físico, nem tampouco apenas dos elementos da ceia do
Senhor, mas, sim, de fazer a vontade de Deus, de seguir a Sua Palavra, pois,
como dissera Jesus noutra oportunidade: “A minha comida é fazer a vontade
daquele que Me enviou e realizar a Sua obra”(Jo.4:34). Como o apóstolo Paulo
explanaria tempos depois: “…o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas
justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”(Rm.14:17). Qual tem sido o nosso
alimento diário?
- Por fim, ainda falando em colméias, lembremo-nos dos zangões,
as abelhas macho, cuja única função era a de fecundar a rainha. “…Os machos
podem entrar em qualquer colméia ao contrário das fêmeas. A única missão dos
machos é fecundar a rainha.(…). Depois de cumprirem essa missão, eles não são
mais aceitos na colméia. No fim do verão, ou quando existe pouco mel na
colméia, as operárias fecham a porta da colméia e deixam os machos morrerem ao
frio e à fome.…” (Abelha. end.cit.).
- Nos dias de Débora, parece mesmo que os varões eram quase que
só “zangões”, ante a sua frouxidão e falta de disposição em servir a Deus e
nEle buscar coragem. Os “zangões” não têm colméia fixa, vivem de um lado para o
outro, sem parada certa e nada mais fazem senão fecundar a rainha. São despidos
de defesa pessoal e somente o mais hábil deles consegue voar a ponto de poder
fecundar a abelha-rainha. Depois que fecundam a rainha, perdem a sua função,
são banidos do grupo e, quando há falta de mel ou quando se encerra o verão,
não conseguem mais entrar na colméia.
- Os zangões falam-nos daqueles que não têm firmeza espiritual,
dos tímidos sobre os quais já dissertamos supra. Triste é ser “zangão” no meio
do povo de Deus. O “zangão” não tem firmeza, vive de um lado para outro,
servindo apenas para a frutificação dos outros, mas não tendo qualquer vida
espiritual própria. Na dificuldade, morre, porque não tem raiz em si mesmo,
porque não tem vida abundante(Mt.13:20-22). Quando acabar o verão, ou seja,
quando vier o arrebatamento da Igreja, por causa de sua negligência espiritual,
de sua timidez, será mantido do lado de fora da cidade
celeste(Mt.25:3,8,10-12). Que não sejamos “zangões”, amados irmãos!
V – O QUE APRENDEMOS A FAZER COM DÉBORA
- Como temos feito em todas as lições, investiguemos agora o que
podemos aprender com Débora para aprimorarmos o nosso caráter cristão.
“Coragem”
é uma atitude que vem do interior, do âmago do ser humano, uma disposição de
enfrentar as oposições levantadas pelo inimigo, de demonstrar confiança em Deus
e em Suas promessas e, diante disto, fazer aquilo que é da vontade do Senhor,
mesmo que contrarie a razão, a lógica e a vontade própria. Coragem é, segundo o
Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “firmeza de espírito para enfrentar
situação emocionalmente ou moralmente difícil”.
- Ora, na vida de Débora, vemos esta virtude bem delineada. Num
instante de fracasso espiritual, em que o povo estava há décadas vivendo no
pecado, misturando-se com a idolatria dos povos que viviam no meio dos
israelitas, Débora resolveu dedicar-se a Deus e a viver em santidade, a ponto
de se tornar uma profetisa e, depois, uma juíza em Israel, u’a mulher que se
destacava numa sociedade machista. Assim também, nós, que servimos a Deus no
meio de uma geração perversa e corrompida, devemos, também, brilhar como astros
no mundo, devemos refletir a glória do Senhor, sermos testemunhas de Jesus
Cristo, andando contra o curso deste mundo e, “de coração inteiro” (a palavra
“coragem” vem de “cor”, que, em latim, significa coração) servir ao Senhor.
- Mas, com Débora, também aprendemos a dar a prioridade às
coisas de Deus. Débora é identificada como “mulher profetisa”, ou seja, tinha
em primeiro plano o seu relacionamento com Deus. Comungava com o Senhor dos
Seus segredos, tinha intimidade com Deus, buscava, em primeiro lugar na sua
vida, ter um papel determinado por Deus na sociedade. “Buscar primeiro o reino
de Deus e a sua justiça” é o que deve fazer cada servo do Senhor, seguindo,
assim, o exemplo deixado por Débora.
- Mas Débora, apesar de pôr o seu relacionamento com Deus em
primeiro plano, de ter a busca do Senhor a sua principal ocupação, também nos
dá uma lição a respeito não nos esquecermos de nossa posição diante da
sociedade, de respeitarmos a cultura do povo onde vivemos, naquilo, obviamente,
que não contraria a Palavra do Senhor. Débora era “mulher profetisa”, mas não
deixava de assumir a sua condição de “mulher” bem assim o seu papel de “mulher
de Lapidote”.
- Débora não negou a sua femininidade, nem tampouco a sua
condição de mulher de Lapidote, apesar de ser profetisa e juíza de Israel.
Embora soubesse que havia sido levantada como “mãe em Israel”, Débora jamais
negou a sua posição social, o que, infelizmente, muitos não têm feito. Tanto
assim é que, no momento de libertar a Israel, chamou Baraque que, como homem,
tinha condições de comandar o exército na guerra, função que não era possível
Débora assumir e, mesmo quando Baraque pediu que Débora fosse com ele, não
assumiu para si o comando, como também não foi a mulher que obteve a honra
militar. Que lição para os nossos dias!
- Devemos dar prioridade à obra de Deus, buscar primeiro o reino
de Deus, mas não devemos nos descuidar dos papéis que temos na sociedade,
papéis estes, aliás, que nos foram dados pelo próprio Senhor, que nos fez
nascer em uma dada sociedade, bem como ocupar esta ou aquela posição. Como
“mulher” e como “mulher de Lapidote”, Débora tinha responsabilidades que eram
de indispensável cumprimento, até porque, se Débora não se portasse devidamente
como u’a mulher e não tivesse um bom testemunho conjugal diante de Lapidote,
jamais poderia julgar a Israel ou ser profetisa.
- Muitos têm negligenciado, “por causa da obra de Deus”, os seus
papéis sociais, a começar pelos papéis familiares e o resultado disto outro não
é senão o fracasso de seu ministério. Quem não consegue governar bem a sua casa,
como poderá governar a casa de Deus (I Tm.3:4,5). Entretanto, contam-se às
centenas, quiçá milhares, aqueles obreiros que têm feito perecer os seus
ministérios porque descuidaram de cuidar de seus lares. Aprendamos com Débora:
sejamos “profetisa”, mas não deixemos de ser “mulher” e “mulher de Lapidote”.
- Débora também ensina-nos muito a respeito da imparcialidade.
Sendo juíza, Débora não podia fazer acepção de pessoas (Dt.16:19; II Cr.19:7).
Efetivamente, Débora demonstrou ser imparcial. Convocou Baraque e lhe mandou
libertar o povo, mas, ante a sua frouxidão, não deixou de lhe dizer que iria
vencer, mas perderia a honra da vitória para u’a mulher. Também, em seu
cântico, não tratou a todos igualmente, porque Israel fora liberto, mas, antes,
louvou aqueles que expuseram suas vidas em risco, os corajosos, censurando os
que haviam se acovardado, nominando-os sem qualquer favoritismo, tanto que
Meroz, cidade da tribo de Baraque, foi alvo de u’a maldição dura.
- Com Débora, também, aprendemos a lição do discernimento
espiritual. Débora tinha o Espírito Santo e tudo discernia espiritualmente (I
Co.2:11-16). Assim, em seu cântico, vemos que louvou ao Senhor não por causa da
vitória militar obtida, mas porque o povo havia se oferecido voluntariamente,
ou seja, por causa da disposição firme de coração do povo em servir ao Senhor,
disposição esta que fora o ponto inicial da vitória exterior obtida. De igual
modo, ao censurar os que se negaram a ir à guerra, Débora aponta fatores
internos, espirituais. Temos este discernimento espiritual, ou nos comportamos
como verdadeiros homens naturais, julgando apenas segundo a aparência?
- Débora, também, ensina-nos a lição do companheirismo, do amor
fraternal. Segundo vemos do relato bíblico, Débora não se negou a acompanhar
Baraque, ainda que fosse dele a tarefa de comandar o exército e libertar o povo
de Israel. Poderia ficar debaixo da sua palmeira entre Ramá e Betel, nos montes
de Efraim, já que não era sua a tarefa, conforme a mensagem do Senhor, mas,
ante o pedido de Baraque, sentiu amor fraternal e fez companhia ao exército,
embora não tenha guerreado propriamente, vez que isto não era da sua alçada.
Mas o fato de ir até um campo de batalha, sendo u’a mulher de certa idade,
demonstra como ela era companheira e disposta a ajudar aqueles que se
encontravam necessitando de apoio moral. Temos sido companheiros dos nossos
irmãos? Temos nos ajudado uns aos outros?
VI – O QUE APRENDEMOS A NÃO FAZER COM DÉBORA
- O relato da vida de Débora é muito sucinto, de modo que quase
não podemos encontrar qualquer falha em sua conduta. Entretanto, como bem
sabemos, só uma pessoa não teve falhas em toda a história sagrada: nosso Senhor
e Salvador Jesus Cristo.
- Ainda que entendamos que a situação vivida por Israel era
extremamente difícil nos dias da dominação de Jabim, o fato é que a Bíblia nos
fala que todo o povo tinha de subir até os montes de Efraim, entre Ramá e
Betel, para levar as causas para serem julgadas por Débora, que habitava
debaixo de suas palmeiras (Jz.4:5).
- Débora, portanto, era uma pessoa pouco acessível, que não ia
ao encontro do povo, mas o povo é quem tinha de subir até os montes de Efraim.
Como nos ensina K.A. Kitchen, “…a região no centro-oeste da Palestina, que caiu
por sorte a Efraim, é, em sua maior parte, relativamente terreno montanhoso,
com melhor precipitação chuvosa que Judá, e com alguns bons solos.(…). Os
efraimitas tinham acesso direto, ainda que não muito fácil, até o grande tronco
de estradas norte-sul, que atravessa a planície ocidental…’
(Efraim(geográfico). In: J.D. Douglas. O novo dicionário da Bíblia(São
Paulo: Vida Nova, 1990), v.I, p.462).
- Débora, em vez de ir ao encontro dos necessitados, preferia
desfrutar dos bons solos de suas palmeiras, enquanto o povo tinha de sofrer
para ir ao seu encontro, entre as montanhas de Efraim. Os juízes normalmente
iam ao encontro do povo para fazer seus julgamentos (cfr.I Sm.7:15-17), mas
Débora preferia a comodidade de suas palmeiras, instituindo uma inacessibilidade.
- Devemos ser acessíveis aos que necessitam de nós, devemos
“descer do pedestal”, da “comodidade da palmeira”, da “cavalgadura das jumentas
brancas” (Jz.5:10) para ir ao encontro daqueles que tanto estão a precisar de
nossos talentos, de nossos dons espirituais e naturais. Jesus ia ao encontro
dos publicanos, pecadores e meretrizes (Mc.2:15,16), porque sabia que os
doentes precisam de médico (Mc.2:17) e que o médico deve ir ao seu encontro e
não o contrário.
- No entanto, nos dias em que vivemos, mais e mais as pessoas
habitam debaixo das palmeiras, no cume dos montes de Efraim, atendendo apenas
aqueles que, além de toda a necessidade, conseguirem transpor os obstáculos do
terreno montanhoso.Não podemos ser inacessíveis, pois dependemos uns dos outros
para seguirmos nossa caminhada rumo ao céu, não somos melhores do que os
outros, pois, tanto os que estavam nos montes de Efraim, como os demais se
encontravam na mesma situação de opressão e sofrimento sob Jabim, rei de Hazor.
Por que, então, ser inacessível? Por que gerar uma “burocracia eclesiástica”?
- Tamanho era o apego de Débora às palmeiras entre Ramá e Betel,
que Baraque, em sua frouxidão, condicionou sua ida à guerra ao deslocamento de
Débora para o monte Tabor e, depois, para o ribeiro de Quisom. Débora acabou
cedendo, resolveu fazer companhia a Baraque, abandonando a inacessibilidade, o
que foi fundamental para o moral da tropa e para que se tivesse a vitória. Que
bom seria que os inacessíveis de hoje seguissem este gesto de Débora e saíssem
de seus “gabinetes refrigerados”, de suas “redomas de vidro” (algumas até
literais…) e fossem ao encontro dos necessitados, daqueles que tanto precisam
de ajuda e de apoio. A vitória seria, certamente, como aconteceu com Israel, do
povo de Deus. Neste sentido, aliás, o início do cântico de Débora serve para
ela própria, na medida em que, como mulher profetisa e juíza em Israel, pôs-se
à frente do povo para a batalha.
- Outro contra-exemplo que Débora nos dá está vinculada a esta
sua inacessibilidade. Sendo u’a mulher profetisa, Débora não poderia trazer a
mensagem de Deus tão somente àqueles que a procuravam. Fazia-se necessário que
se falasse da justiça do Senhor não só aos que conseguiam transpor os
obstáculos dos montes de Efraim, mas também aos demais, que também precisavam
ouvir algo da parte de Deus. Débora, porém, não tinha ido ao encontro do povo,
calava-se, assim, na maior parte do tempo de seu ministério.
- Não é por outro motivo que, em seu cântico, Débora apresenta
uma conclamação do Senhor a todos quantos se assentavam em juízo: “Onde se ouve
o estrondo dos flecheiros, entre os lugares onde se tiram águas, ali falai das
justiças do Senhor, das justiças que fez às Suas aldeias em Israel; então, o
povo do Senhor descia às portas”(Jz.5:11).
- Ora, se em plena época dos juízes em Israel, era dever de cada
um não se calar, mas falar das justiças do Senhor seja no lugar onde se
encontravam os distribuidores de água, local freqüentado pelas pessoas mais
simples e humildes, locais onde se aglomerava o maior número de pessoas, que
diremos dos nossos dias, dias da dispensação da graça, quando há uma expressa
ordem de Cristo para pregarmos o Evangelho para toda a criatura, Evangelho que
é o “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e
também do grego, porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé”
(Rm.1:16,17a)?
- Débora não poderia ter se mantido calada a maior parte do
tempo, falando apenas àqueles que se dirigiam à região das palmeiras. Era
necessário que também tivesse descido aos montes e anunciado, ao longo do
caminho, bem como no lugar de distribuição de água, a respeito das justiças do
Senhor, justiças que eram referentes a todas as aldeias de Israel, não apenas
aos bons solos entre Ramá e Betel. Não nos calemos, mas, antes, preguemos o
Evangelho a tempo e fora de tempo (II Tm.4:2), ainda mais quando sentimos que
já se aproxima o fim.
- Débora precisava se despertar (Jz.5:12), assim como Baraque
tinha de se levantar. Outro contra-exemplo dado por Débora é o sono espiritual,
a falta de iniciativa para dar cabo da opressão. “Desperta, ó tu que dormes, e
levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá” (Ef.5:14). Muitos se
encontram sonolentos na atualidade, entorpecidos pelas coisas desta vida, pela
comodidade e não conseguem sentir o clamor do povo por salvação e libertação.
Devemos nos levantar, devemos nos despertar e fazer a obra do Senhor, enquanto
é dia, porque a noite vem quando ninguém mais pode trabalhar (Jo.9:4). Não
temos outra coisa a fazer senão, como as abelhas operárias, trabalhar para o
engrandecimento de nossa “colméia”, ou seja, do reino de Deus. Deixemos de lado
a sombra das palmeiras, os bons solos de Ramá e Betel e vamos às águas, onde
muitos estão sedentos da Palavra do Senhor. Estamos dispostos?
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