Pesquisar este blog

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Pecadores nas Mãos de um Deus Irado


Pecadores nas Mãos de um Deus Irado
por
Jonathan Edwards


Sermão pregado em 08 de Julho de 1741 em Enfield, Connecticut - EUA 
... A seu tempo, quando resvalar o seu pé” (Deuteronômio 32.35).
Nesse versículo os ímpios e incrédulos israelitas, que eram o povo visível de Deus, e que viviam debaixo de Sua graça, são ameaçados com a vingança do Senhor. Apesar de todas as obras maravilhosas que Deus operara em favor desse povo, este permanecia sem juízo e destituído de entendimento, como está escrito no versículo 28. e mesmo sob todos os cuidados do céu produziram fruto amargo e venenoso, conforme verificamos nos dois versículos anteriores.
A declaração que escolhi para meu texto, "A seu tempo, quando resvalar o seu pé", parece subentender as seguintes questões, relativas à punição e destruição que aqueles ímpios israelitas estavam sujeitos a sofrer:
1. Que eles estavam sempre expostos à destruição , assim como está sujeito a cair todo aquele que se coloca de pé, ou anda por lugares escorregadios. A maneira como serão destruídos vem aí representada pelo deslize de seus pés. A mesma citação encontramos no Sl 73.18-19, "Tu certamente os pões em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição".
2. Faz supor também que estavam sempre sujeitos a uma súbita e inesperada destruição, à semelhança daquele que anda por lugares escorregadios e a qualquer instante pode cair. O ímpio não consegue prever se, num momento, ficará de pé, ou se, em seguida, cairá. Quando cai, cai subitamente, sem aviso, como está escrito, também, no Sl 73.18-19, "Tu certamente os põe em lugares escorregadios, e os fazes cair na destruição. Como ficam de súbito assolados! Totalmente aniquilados de terror!"
3. Outra coisa implícita no texto é que os ímpios estão sujeitos a cair por si mesmos, sem serem derrubados pelas mãos de outrem, pois aquele que se detém ou anda por terrenos escorregadios não precisa mais do que seu próprio peso para cair por terra.
4. E também a razão pela qual ainda não caíram, e não caem, é por não haver chegado ainda o tempo determinado pelo Senhor. Pois está escrito que quando este tempo determinado, ou escolhido, chegar, seu pé irá resvalar. E então serão entregues à queda, para a qual já estão predispostos por causa do próprio peso. Deus não os susterá mais em lugares escorregadios, mas vai deixá-los sucumbir. Então, nesse exato momento, cairão em destruição, à semelhança daqueles que transitam em terrenos escorregadios, à beira de precipícios, e não conseguem se manter de pé sozinhos,caindo imediatamente e se perdendo ao serem abandonados.
Eu insistira agora num exame maior das seguintes palavras: não há nada, a não ser a boa vontade de Deus, que impeça os ímpios de caírem no inferno a qualquer momento.
Por mera boa vontade de Deus, me refiro à sua vontade soberana, ao seu livre arbítrio, o qual não é restringido por nenhuma obrigação, nem tolhido por qualquer tipo de dificuldade. Em última análise, sob qualquer aspecto, nada, exceto a vontade de Deus, tem poder para preservar os ímpios da destruição por um instante sequer.
A verdade dessa observação transparecerá nas seguintes considerações:
1. Não falta poder a Deus para lançar os ímpios no inferno a qualquer momento. A mão dos homens não é suficientemente forte quando Deus se levanta. O mais forte deles não tem poder para resistir-lhe, e ninguém consegue se livrar de suas mãos.Ele não só pode lançar os ímpios no inferno, como pode fazê-lo com a maior facilidade. Muitas vezes, uma autoridade terrena encontra grande dificuldade em dominar um rebelde, o qual acha meios de se fortalecer e se tornar mais poderoso pelo número de seguidores que alicia. Mas com Deus não é assim. Não há força que resista ao seu poder. Mesmo que as mãos se unam, e que enormes multidões de inimigos do Senhor juntem suas forças e se associem, serão todos facilmente despedaçados. São como montes de palha seca e leve diante de um furacão, ou como grande quantidade de restolho perto de chamas devoradoras. Nós achamos fácil pisar e esmagar uma lagarta que se arrasta pelo chão. Achamos fácil também cortar ou chamuscar um fio de linha fino que segura alguma coisa. Então, é simples para Deus, quando lhe apraz, lançar seus inimigos no inferno profundo. Quem somos nós, que imaginamos poder resistir Àquele ante cuja repreensão a terra treme, e perante quem as pedras tombam?
2. Eles merecem ser lançados no inferno. Assim, a justiça divina não se interpõe no caminho dos ímpios; nem faz objeção pelo fato de Deus usar seu poder para destruí-los a qualquer momento. Muito pelo contrário, a justiça fala assim da árvore que produz frutos maus: "... pode cortá-la; para que está ela ainda ocupando inutilmente a terra?" (Lc 13.7). A espada da justiça divina está o tempo todo erguida sobre suas cabeças, e somente a mão de absoluta misericórdia e a mera vontade de Deus podem detê-la.
3. Os ímpios já estão debaixo da sentença de condenação ao inferno. Eles não só merecem ser lançados ali, mas a sentença da lei de Deus, esse preceito de eterna e imutável retidão que o Senhor estabeleceu entre si mesmo e a humanidade, também se coloca contra eles, e assim os mantém. Portanto, tais homens já estão destinados ao inferno. "...o que não crê já está julgado." (Jo 3.18). Assim, todo impenitente pertence, verdadeiramente, ao inferno. Ali é o seu lugar, ele é de lá, como temos em João 8.23: "vós sois cá debaixo" e para lá é destinado. Este é o lugar que a justiçam, a Palavra de Deus e a sentença de sua lei imutável reservam para ele.
4. Assim sendo, eles são objetos da ira e da indignação de Deus, que se manifesta através dos tormentos do inferno. E a razão de não descerem ao inferno agora mesmo não é pelo fato do Senhor, em cujo poder se encontram, estar menos irado com eles no momento, ou, pelo menos, não tão encolerizado como está com aquelas miseráveis criaturas a quem ele atormenta no inferno, as quais experimentam e sofrem ali a fúria de sua indignação. Sim, Deus se acha muito mais furioso com um grande número de pessoas que está vivendo na terra agora, talvez de modo mais tranqüilo e confortável, do que com muitos daqueles que estão experimentando as chamas do inferno. Portanto, a razão porque Deus ainda não abriu a sua mão e os liquidou, não é por ele não se importar com suas iniqüidades, ou não se ofender. O Senhor não se parece com eles, embora pensem que sim. A fúria de Deus arde contra eles, sua condenação não demora. O abismo está preparado, o fogo está pronto, a fornalha incandescente está ardendo, pronta para recebê-los. As chamas vermelhas queimam. A espada luminosa foi afiada e pesa sobre suas cabeças. O inferno abriu a sua boca debaixo deles.
5. O diabo está pronto a cair sobre os ímpios, para apoderar-se deles como coisa sua, no momento em que Deus o permitir. Eles lhe pertencem, suas almas encontram-se em seu poder e sob seu domínio. As Escrituras os apresentam como propriedade de satanás (Lc 11.21). Os demônios os espreitam, estão sempre ao seu lado, à sua direita, esperando por eles como leões esfaimados e enfurecidos que vêem a presa, aguardando a hora de agarrá-la, mas são restringidos por enquanto. Se Deus retirasse sua mão, a qual os refreia, eles cairiam sobre suas pobres almas num instante. A velha serpente está pronta a dar o bote. O inferno escancara sua boca para recebê-los. E se Deus permitisse, seriam rapidamente engolidos e consumidos.
6. Nas almas dos pecadores reinam aqueles princípios diabólicos que os faria arder agora mesmo no inferno, se não fosse a restrição imposta por Deus. Existe na própria natureza carnal do homem uma potencialidade alicerçando os tormentos do inferno. Há aqueles princípios corruptos que agem de maneira poderosa sobre eles, que só dominam completamente, e que são sementes do fogo do inferno. Esses princípios são ativos e poderosos, de natureza extremamente violenta, e se não fosse a mão restringidora do Senhor sobre eles, seriam logo destruídos. Iriam arder em chamas da mesma forma que a corrupção e a rebeldia fazem arder os corações das pessoas condenadas, gerando nelas os mesmos tormentos. As almas dos ímpios são comparadas nas Escrituras com o mar agitado (Is 57.20). Por enquanto Deus controla as iniqüidades deles pelo seu imenso poder, como faz com as ondas enfurecidas do mar, dizendo: "virão até aqui, mas não prosseguirão." Mas se Deus retirasse deles seu poder refreador, seriam todos tragados por elas. O pecado é a ruína e a miséria da alma. Ele é destrutivo pela própria natureza. E se Deus o deixasse sem controle, não seria preciso mais nada para tornar as almas humanas absolutamente miseráveis. A corrupção no coração do homem é algo cheio de fúria incontrolável e sem freio. Enquanto os pecadores viverem aqui, essa fúria será como fogo reprimido pelas restrições divinas. Ao passo que, se fosse liberada, incendiaria o curso natural da vida. E como o coração é um poço de pecado, este mesmo pecado iria imediatamente transformar a alma num forno incandescente ou numa fornalha de fogo e enxofre, caso não fosse restringido.
7. O fato de não haver sinais visíveis da morte por perto, não quer dizer que haja, por um momento, sequer segurança para os ímpios. O fato do homem natural ter boa saúde, de não prever que poderia deixar este mundo num minuto por um acidente, de não haver perigo visível à sua volta, nada disso lhe ser vê de segurança. Contínuas e inúmeras experiências humanas, em todas as épocas, nos mostram que não existem provas de que o homem não esteja à beira da eternidade, ou de que seu próximo passo não venha a ser no outro mundo. Os caminhos e meios, invisíveis e imprevistos, de chegar lá são incontáveis e inconcebíveis. Os homens não convertidos caminham por cima das profundezas do inferno, sobre uma superfície frágil onde existem varias áreas quebradiças, também invisíveis, as quais não conseguirão agüentar o seu peso. As flechas da morte voam ao meio-dia sem serem vistas. O olhar mais atento não pode distingui-las. Deus tem muitas maneiras diferentes e misteriosas de tirar os homens pecadores do mundo e despachá-los para o inferno. Não há nada que faça crer que o Senhor precise de ajuda de um milagre, ou que necessite se desviar do curso natural de sua providência para destruir qualquer pecador, a qualquer momento. Desde que todos os meios para fazer os ímpios deixarem este mundo estão de tal forma nas mãos de Deus, tão absoluta e universalmente sujeitos ao seu poder e determinação, segue-se que a ida dos pecadores para o inferno, a qualquer momento, depende simplesmente da vontade de Deus � quer usando meios ou não.
8. O cuidado e a prudência dos homens naturais em preservar suas vidas, ou o cuidado de terceiros em preservá-las, não lhes dá segurança por um momento sequer. A providência divina e a experiência humana testificam isso. Existem evidências claras de que a sabedoria dos homens não lhes é segurança contra a morte. Se não fosse assim, haveria uma diferença entre a morte prematura e inesperada de homens sábios e prudentes, e dos demais. Mas, o que realmente acontece? "Como morre o homem sábio? Assim como um tolo." (Ec 2.16).
9. Todo o esforço e artimanha dos ímpios para escaparem do inferno não os livram do mesmo, nem por um momento, pois continuam a rejeitar a Cristo, e portanto permanecem ímpios. Quase todos os homens naturais que ouvem falar do inferno alimentam a ilusão de que vão escapar dele. Quanto a sua própria segurança, confiam em si mesmos. Vangloriam-se do que fizeram, do que estão fazendo e do que pretendem fazer. Cada um traça seu próprio plano, pensa em evitar a condenação, e se vangloria e que irá tramar tão bem todas as coisas que seu esquema, com certeza, não falhará. Na verdade, eles ouvem dizer que poucos se salvam, e que a maior parte dos homens que já morreram foram para o inverno; mas cada um deles se imagina capaz de planejar melhor a própria fuga, do que os outros puderam fazer. Dentro de si mesmos dizem que não pretendem ir para esse lugar de tormento, e que pretendem tomar todo o cuidado necessário, esquematizando as coisas de tal forma na ao terem possibilidade de falhar.

Mas os insensatos filhos dos homens iludem-se miseravelmente quanto a seus próprios planos. A confiança que depositam na própria força e sabedoria é o mesmo que confiar na fragilidade de uma sombra. A maior parte daqueles que antes viveram debaixo da dispensação da graça, e agora estão mortos, sem dúvida alguma foram para o inferno. E não é por terem sido menos espertos do que os que ainda estão vivos, nem por terem planejado as coisas de tal forma que não lhes assegurou o escape. Se pudéssemos falar com eles, um a um, e perguntar-lhes se, quando vivos, esperavam ser vítimas de tamanha miséria, sem dúvida ouviríamos todos dizer: "Não, eu nunca pensei em vir para cá. Eu tinha esquematizado as coisas de maneira bem diferente. Pensei que iria conseguir algo melhor para mim, que meu plano era adequado. Pensei em me precaver melhor, mas tudo aconteceu de maneira tão repentina. Não esperava por isso naquela época, e nem daquela maneira. Mas tudo veio como um ladrão. A morte foi mais esperta que eu. A ira de Deus foi rápida demais para mim. Oh!, maldita insensatez! Eu me gabava, e me deleitava em sonhos vãos quanto ao que faria no futuro. E justamente quando eu mais falava de paz e segurança, me sobreveio uma súbita destruição."
10. Deus não se sujeita a nenhuma obrigação, nem a nenhuma promessa de manter o homem natural fora do inferno por um momento sequer. Ele não fez absolutamente nenhuma promessa de vida eterna, ou de libertação ou proteção da morte eterna, senão àquelas que estão contidas na aliança da graça � as promessas concedidas em Cristo, no qual todas as promessas são o sim e o amém. Mas obviamente os que não são filhos da aliança da graça não têm interesse na mesma, pois não crêem em nenhuma das suas promessas, e nem têm o menor interesse no Mediador dessa aliança.
Portanto, apesar de tudo que os homens possam imaginar ou pretender sobre promessas de salvação, devido suas lutas pessoais e buscas incessantes, deixamos claro e manifesto que qualquer desses esforços ou orações que se façam em relação à religião, será inútil. A não ser que creiam em Cristo, o Senhor, de modo nenhum Deus está obrigado a conservá-los fora da condenação eterna.
Então, os homens impenitentes estão detidos nas mãos de Deus por cima do abismo do inferno. Eles merecem o lago de fogo e para ele estão destinados. Deus se acha terrivelmente irritado. Seu furor para com eles é tão grande quanto para com aqueles que já estão agora sofrendo o suplício da fúria de sua ira no inferno. Esses ímpios não fizeram absolutamente nada para abrandar ou diminuir sua cólera, portanto o Senhor não está de modo algum preso a qualquer promessa de livramento, nem por um momento sequer. O diabo espera por eles, o inferno já escancarou a sua boca para tragá-los. O fogo latente em seus corações agrava-se agora querendo explodir. E como continuam sem o menor interesse no Mediador, não existem meios, ao alcance deles, que lhes possa dar segurança. Em suma, eles não têm refúgio e nada onde se segurar. O que os retém a cada instante é a absoluta boa vontade divina e a clemência sem compromisso, sem obrigação, de um Deus enraivecido.

Aplicação
Essa mensagem pode despertar as pessoas não convertidas para o significado do perigo que estão correndo. Isso que vocês escutaram é o caso de todo aquele que não está em Cristo. Esse mundo de tormento, isto é, o lago de enxofre incandescente, está aberto debaixo de vossos pés. Ali se encontra o terrível abismo de chamas que ardem com a fúria de Deus, e o inferno com sua imensa boca escancarada. E vocês não têm onde se apoiarem, nem coisa alguma onde se segurarem. Não existe nada entre vocês e o inferno, senão o ar, e só o poder e o favor de Deus podem vos suster.

Provavelmente vocês não têm consciência dessas coisas, acham que vão conseguir se livrar do inferno, e não vêem nisso tudo a mão de Deus. E olham as coisas ao seu redor, como o bom estado de vossa saúde física, os cuidados que tomam de vossas vidas, e os meios que usam para vossa própria preservação. Mas essas coisas não representam nada. Se Deus retirasse sua mal, elas de nada valeriam para impedir-vos a queda; elas valem tanto como a brisa tênue que tenta sustentar uma pessoa no ar.

Vossas iniqüidades vos fazem pesados como chumbo, pendentes para baixo, pressionados em direção ao inferno pelo próprio peso, e se Deus permitisse que caíssem vocês afundariam imediatamente, desceriam com a maior rapidez, e mergulhariam nesse abismo sem fundo. Vossa saúde, vossos cuidados e prudência, vossos melhores planos, toda a vossa retidão, de nada valeriam para sustentar-vos e conservar-vos fora do inferno. Seria como tentar segurar uma avalancha de pedras com uma teia de aranha. Se não fosse a misericórdia de Deus, a terra não suportaria vocês por um só momento, pois são uma carga para ela. A natureza geme por causa de vocês. A criação foi obrigada a se sujeitar à escravidão, involuntariamente, por causa da vossa corrupção. Não é com prazer que o sol brilha sobre vocês, para que sua luz vos alumie para pecarem e servirem a satanás. A terra não produz de bom grado os seus frutos para satisfazer vossa luxuria. Nem está disposta a servir de palco à exibição de vossas iniqüidades. Não é voluntariamente que o ar alimenta vossos corpos, mantendo viva a chama dos vossos corpos, enquanto vocês gastam a vida servindo os inimigos de Deus. As coisas criadas por Deus são boas e foram feitas para o homem, por meio delas, servisse ao Senhor. Não é com prazer que prestam serviço a outros propósitos, e gemem quando são ultrajadas ao servirem objetivos tão contrários à sua finalidade e natureza. E a própria terra vomitaria vocês se não fosse a mão soberana d'Aquele a quem vocês tanto tem ofendido. Eis aí as nuvens negras da ira de Deus pairando agora sobre vossas cabeças carregadas por uma tempestade ameaçadora, cheia de trovões. Não fosse a mão restringidora do Senhor, elas arrebentariam imediatamente sobre vocês. A misericórdia soberana de Deus, por enquanto, refreia esse vento impetuoso, do contrário ele sobreviria com fúria, vossa destruição ocorreria repentinamente, e vocês seriam como palha dispersada pelo vento.

A ira de Deus é como grandes águas represadas que crescem mais e mais, aumentam de volume, até que encontram uma saída. Quanto mais tempo a correnteza for reprimida, mais rápido e forte será o seu fluxo ao ser liberada. É verdade que até agora ainda não houve um julgamento por vossas obras más. A enchente da vingança de Deus encontra-se represada. Mas, por outro lado, vossa culpa cresce dava dez mais, e dia a dia vocês acumulam mais e mais ira contra si mesmos. As águas estão subindo continuamente, fazendo sua força aumentar mais e mais. Nada, a não ser a misericórdia de Deus, detém as águas, as quais não querem continuar represadas e forçam uma saída. Se Deus retirasse sua mão das comportas, elas se abririam imediatamente e o mar impetuoso da fúria e da ira de Deus iria se precipitar com furor inconcebível, e cairia sobre vocês com poder onipotente. E mesmo que vossa força fosse dez mil vezes maior do que é, sim, dez mil vezes maior do que a força do mais forte e vigoroso diabo do inferno, não valeria nada para resistir ou deter a ira divina.

O arco da ira de Deus já está preparado, e a flecha ajustada ao seu cordel. A justiça aponta a flecha para vosso coração, e estica o arco. E nada, senão a misericórdia de Deus � um Deus irado! � que não se compromete e a nada se obriga, impede que a flecha se embeba agora mesmo do vosso sangue. Assim estão todos vocês que nunca experimentaram uma transformação real em vossos corações pela ação poderosa do Espírito do Senhor em vossas almas � todos vocês que não nasceram de novo, nem foram feitos novas criaturas, ressurgindo da morte do pecado para um estado de luz, e para uma vida nova nunca experimentada antes. Por mais que vocês tenham modificado a conduta em muitas coisas, e tenham possuído simpatias religiosas, e até mantido uma forma pessoal de religião com vossas famílias e em particular, indo à casa do Senhor, sendo até severos quanto a isso, mesmo assim vocês estão nas mãos de um Deus irado. Somente sua misericórdia vos livra de ser, agora, neste momento, tragados pela destruição eterna. Por menos convencidos que vocês estejam agora quanto às verdades ouvidas, no porvir serão plenamente convencidos. Aqueles eu já se foram, e que estavam na mesma situação que a vossa, percebem que foi exatamente isso que lhes aconteceu, pois a destruição caiu de repente sobre muitos deles, quando menos esperavam, e quando mais afirmavam vier em paz e segurança. Agora eles vêem que aquelas coisas nas quais puseram sua confiança para obter paz e segurança eram nada mais que uma brisa ligeira e sombras vazias.

O Deus que vos mantém acima do abismo do inferno vos abomina; ele está terrivelmente irritado e seu furor contra vocês queima como fogo. Ele vê vocês como apenas dignos de serem lançados no fogo. E seus olhos são tão puros que não podem tolerar tal visão. Vocês são dez mil vezes mais abomináveis a seus olhos do que é a mais odiosa das serpentes venenosas para olhos humanos. Vocês o têm ofendido infinitamente mais do que qualquer rebelde obstinado ofenderia a um governante. No entanto, nada, a não ser a sua mão, pode impedir-vos de cair no fogo a qualquer momento. O fato de vocês não terem ido para o inferno a noite passada e de terem tido permissão para acordar ainda aqui neste mundo, depois de terem fechado os olhos ontem para dormir, atribui-se ao mesmo favor. Não existe outra razão porque vocês não foram lançados no inferno ao se levantarem pela manhã, a não ser o fato da mão de Deus ter-vos sustentado. E não existe outra razão porque vocês não caiam no inferno neste exato momento.

Oh!, pecador, pense no perigo terrível que se encontra! É sobre uma grande fornalha de furor, sobre um abismo imenso e sem fim, cheio do fogo da ira, que você está pendurado, seguro pela mão de Deus, cujo furor acha-se tão inflamado contra você, como contra muitas pessoas já condenadas no inferno. Você está suspenso por uma linha tênue, com as chamas da cólera divina lampejando à tua volta, prontas para atearem fogo e queimar-te por inteiro. E você continua sem interesse no Mediador, sem nada onde se agarrar para poder se salvar, nada que possa afastar as chamas da cólera divina, nada de teu próprio, nada que tenha feito ou possa vir a fazer, para persuadir o Senhor a poupar tua vida por um minuto sequer. Considere, então, mais detidamente, vários aspectos dessa cólera que te ameaça com tão grande perigo.

1. A quem pertence essa ira? É a ira do Deus infinito. Se fosse somente a ira humana, mesmo a do governante mais poderoso, comparativamente seria considerada como coisa pequena. A ira dos reis é bastante temida, principalmente dos monarcas absolutos, que possuem os bens e as vidas de seus súditos inteiramente sob o seu poder, para serem usados quando bem entenderem. "Como o bramido do leão é o terror do rei; o que lhe provoca a ira peca contra a sua própria vida." (Pv 20.2). O súdito que enfurece este tipo de governante arbitrário, sofre os maiores tormentos que se possa conceber, ou que o poder humano possa infligir. Porém, os maiores principados da terra, em toda a sua grandeza, majestade e poder, mesmo revestidos de seus grandes terrores, não são mais do que vermes débeis e desprezíveis que rastejam no pó, quando comparados com o grande e todo-poderoso criador e rei dos céus e da terra. Mesmo quando estão enraivecidos e sua fúria chega ao máximo, é muito pouco o que podem fazer. Os reis da terra são, perante Deus, como gafanhotos. Valem menos que nada. Tanto o seu amor quanto o seu ódio são desprezíveis. A ira do grande Rei dos reis é muito mais terrível do que a deles, tal como é maior a sua majestade. "Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer". (Lc 12.4-5).
2. É à ferocidade de sua ira que vocês estão expostos. Lemos, com freqüência, sobre a ira de Deus, como por exemplo em Is 58.18. "Segundo as obras deles, assim retribuirá; furor aos seus adversários." E também em Is 66.15 "Porque, eis que o Senhor virá em fogo, e os seus carros como um torvelinho, para tornar a sua ira em furor, e a sua repreensão em chamas de fogo." E assim é em muitos outros lugares da Bíblia. Lemos também em ap 19.15: "... o lagar do vinho do furor da ira do Deus todo-poderoso." Essas palavras são incrivelmente aterradoras. Se estivesse escrito apenas a "ira de Deus", isso já nos faria supor algo bastante temível. Mas está escrito "o furor da ira de Deus", ou seja, a fúria de Deus, o furor de Jeová! Oh!, quão terrível deve ser esse furor! Quem pode exprimir ou conceber o que essas palavras contêm? Mas não é apenas isso que está escrito, e sim "o furor da ira do Deus Todo-Poderoso." Essas palavras dão a entender que uma grande manifestação de seu poder onipotente vai acontecer. Através dela ele infligirá aos homens todo o furor de sua ira. Assim como os homens costumam manifestar sua própria força através do furor de sua ira, a onipotência divina irá, da mesma forma, se enfurecer e se manifestar. Então, qual será a conseqüência de tudo isso? O que será do pobre verme que vier a sofrer todo este mal? Que mão serão tão fortes, e que coração conseguirá suportar tanto furor? A que terrível, inexprimível, inconcebível abismo de miséria irá chegar a pobre criatura humana que será vítima disso tudo!
Pensem bem, vocês que estão aqui agora, e que permanecem em estado pecaminoso. O fato de Deus vir a efetivar o furor da sua ira, torna implícito que ele infligirá esse castigo sem compaixão. Quando Deus olhar a indescritível aflição do vosso estado, e vir como vossos tormentos são absolutamente desproporcionais à vossa força, e como vossas pobres almas estão esmagadas, imersas em trevas eternas, não terá compaixão de vocês, não ira deter a execução de sua ira, ou, de forma alguma, tornar mais leve sua mão. Nessa hora Deus não usará de misericórdia para com vocês, nem conterá seu vento impetuoso. Ele não terá consideração para com o vosso bem estar, e nem irá evitar que vocês sofram. Na verdade, fará com que sofram na medida exata que sua rigorosa justiça vier a requerer. Nada será modificado só pelo fato de ser difícil para vocês suportarem. "Pelo que também eu os tratarei com furor; os meus olhos não pouparão, nem terei piedade. Ainda que me gritem aos ouvidos em alta voz, nem assim os ouvirei." (Ez 8.18). Deus está pronto, agora, a usar de compaixão com vocês. Hoje é o dia da misericórdia. Vocês podem clamar neste instante, e ter esperanças de alcançar sua graça. Mas quando o dia da misericórdia passar, vosso lamento, o pranto mais doloroso, os gritos, serão em vão. No que diz respeito ao vosso bem estar, vocês estarão completamente perdidos e alienados de Deus. O Senhor não terá outra opção senão a de entregar-vos ao sofrimento e à miséria. E vocês continuarão não tendo outra perspectiva, pois serão vasos de ira, preparados para a destruição. Não haverá outro uso qualquer para tais vasos, senão o de enchê-los da ira de Deus. Quando clamarem ao Senhor, ele estará tão longe de consolar-vos que, inclusive, está escrito a este respeito que Deus irá, simplesmente, 'rir e zombar' de vocês (Pv 1.25-26).
Vejam quão terríveis são estas palavras do grande Senhor: "O lagar eu o pisei sozinho, e dos povos nenhum homem se achava comigo; pisei as uvas na minha ira; no meu furor as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo." (Is 63.3). É quase impossível se conceber palavras que tragam em si uma manifestação maior destas três coisas: desprezo, ódio e fúria de indignação. Se clamarem a Deus por consolo, ele estará longe de querer vir consolar-vos, ou de querer demonstrar-vos interesse ou favor. Ao contrario, o Senhor simplesmente irá esmagar-vos sob seus pés. E apesar de saber que, ao pisotear-vos, vocês não poderão suportar o peso de sua onipotência, ainda assim ele não vai se importar, e irá esmagar-vos debaixo de seus pés, sem piedade, espremendo o vosso sangue e fazendo com que o mesmo espirre longe, manchando suas vestes, maculando seu traje. Ele não só irá odiar-vos, como devotará a vós o maior desprezo. Lugar algum será considerado próprio para vocês, a não ser debaixo de seus pés, para serem pisados como a lama das ruas.
3. A miséria a que vocês estão sujeitos é aquela que Deus vos infligirá, a fim de demonstrar a força da ira do Senhor, Deus tem em seu coração a intenção de mostrar aos anjos e aos homens, não só a excelência do seu amor, como a severidade de seu furor. Às vezes os governantes da terra resolvem mostrar a força de sua ira através de castigos extremos que mandam infligir sobre aqueles que os enfurecem. Nabucodonosor, o poderoso e arrogante rei do império dos caldeus, demonstrou seu furor quando, ao se irritar com Sadraque, Mesaque e Abdenego, ordenou que se acendesse a fornalha de fogo ardente sete vezes mais do que o normal. Como era de se esperar, a fornalha foi aquecida intensamente, até atingir o mais alto grau que poderia produzir. O grande Deus também quer revelar a sua ira, e exaltar sua tremenda majestade e grandioso poder através dos sofrimentos desmedidos de seus amigos. "Que diremos, pois, se Deus querendo mostrar a sua ira, e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos da ira, preparados para a perdição." (Romanos 9.22). E visto que esse é o seu desígnio e o que ele determinou, ou seja, mostrar quão terrível e ilimitada é a ira, a fúria e a indignação do Senhor, ele o mostrará realmente. Será realizado algo horrendo, muito terrível. Quando o grande e furioso Deus tiver se levantado e executado sua terrível vingança sobre o mísero pecador, e o desgraçado estiver sofrendo o peso e o poder infinito de sua indignação, então Deus chamará o universo inteiro para contemplar a imensa majestade e o tremendo poder que nele existe. "Os povos serão queimados como se queima a cal, como espinhos cortados arderão no fogo." "Ouvi vós os que estais longe, o que tenho feito; e vós, que estais perto, reconhecei o meu poder. Os pecadores em Sião se assombram, o tremor se apodera dos ímpios; e eles perguntam: quem dentre nós habitará com o fogo devorador? Quem dentre nós habitará com chamas eternas?" (Isaías 33.12-14).
Assim será com vocês que não são convertidos, se permanecerem neste estado. O poder infinito, a majestade e a grandiosidade do Deus onipotente serão exaltados em vocês através da inexprimível força dos tormentos que vos sobrevirão. Vocês serão atormentados na presença dos santos anjos e na presença do Cordeiro. E quando estiverem nesse estado de sofrimento, os gloriosos habitantes do céu sairão para contemplar esse espetáculo horrendo, e verão como é a fúria do Todo-poderoso. E quando virem todas essas coisas, se prostrarão e adorarão seu grande poder e majestade. "E será que de uma lua nova à outra, e de um sábado a outro, virá toda a carne a adorar perante mim, diz o Senhor. Eles sairão, e verão os cadáveres dos homens que prevaricaram contra mim; porque o seu verme nunca morrerá, nem o seu fogo se apagará; e eles serão um horror para toda a carne." (Isaías 66.23-24).
4. É uma ira eterna. Já seria algo terrível sobre o furor e a cólera do Deus Todo-poderoso por um momento. Mas vocês terão de sofrê-la por toda a eternidade. Essa intensa e horrenda miséria não terá fim. Ao olhar para o futuro, vocês verão à frente uma interminável eternidade, de duração infinita, que irá devorar vossos pensamentos e assombrar vossas almas. E vocês irão se desesperar, com certeza, por não conseguirem nenhum livramento, termo, alívio ou descanso para tanta dor. Saberão também, que terão de sofrer até à última gota por longos séculos, por milhões e milhões de anos, lutando e pelejando contra essa vingança inclemente e todo-poderosa. Então, depois de passar por tudo isso, quando tantos séculos vos tiverem consumido, saberão que tudo não passa apenas de uma gota d'água quando comparado ao que ainda resta. Portanto, vosso castigo será, com certeza, infinito. Oh!, quem poderia exprimir o estado de uma alma em tais circunstâncias? Tudo o que pudermos dizer sobre o assunto, vai nos dar, apenas, uma débil e frágil visão da realidade. Ela é inexprimível, inconcebível, pois "Quem conhece o poder da ira de Deus?"
Que horrendo é o estado daqueles que diariamente, a cada hora, se encontram em perigo de sofrer tamanha ira e infinita miséria! Mas esse é o caso sinistro de toda alma que ainda não nasceu de novo, por mais moral, austera, sóbria e religiosa que seja. Queira Deus vocês pensassem em todas essas coisas, sejam jovens ou velhos. Há razões de sobra para acreditar que muitos daqueles que ouviram o evangelho certamente estarão expostos a esse tormento por toda a eternidade. Não sabemos quem são eles, nem o que pensam. Pode ser que estejam tranqüilos agora, escutando esta mensagem sem se perturbarem muito, e que estejam até se gabando de que, no caso deles, conseguirão escapar. Se soubéssemos que dentre os nossos conhecidos existe uma pessoa, uma só, sujeita a sofrer tal tormento como seria doloroso para nós encarar o assunto. Se conhecêssemos essa pessoa, sempre que a víssemos uma tal visão seria terrível para nós. Iríamos todos levantar grande choro, e prantear por sua causa. Mas, infelizmente, em vez de uma pessoa só, é provável que muitos se lembrem destas exortações somente no inferno! E inúmeras pessoas podem estar no inferno em breve tempo, antes mesmo do ano terminar. E aqueles que estão agora com saúde, tranqüilos e seguros, podem chegar lá antes do amanhecer. Todos os que dentre vocês continuarem até o fim em estado natural pecaminoso, e que conseguirem ficar fora do inferno por mais tempo, estarão lá também em breve. Sua condenação não tardará; virá de súbito, e provavelmente para muitos de vocês, de maneira repentina. Vocês têm toda razão em se admirarem de não estar ainda no inferno. É ocaso, por exemplo, de alguns conhecidos seus, que não mereciam o inferno mais do que vocês e que antes aparentavam ter possibilidade de estarem vivos agora tanto quanto vocês. Para o caso deles já não há esperança. Estão clamando lá em extrema penúria e perfeito desespero. Mas aqui estão vocês, na terra dos vivos, cercados pelos meios de graça, tendo a grande oportunidade de obter a salvação. O que não dariam aquelas pobres almas condenadas, desesperadas, pela oportunidade de viver mais um só dia, como que vocês desfrutam neste momento!
E agora vocês têm uma excelente ocasião. Hoje é o dia em que Cristo abre as portas da misericórdia de par em par, e se coloca de pé clamando e chamando em alta voz aos pobres pecadores. Este é o dia em que muitos estão se reunindo a ele, se apressando em chegar ao reino de Deus. Inúmeros estão vindo diariamente do norte, sul, leste e oeste. Muitos que estavam até bem pouco tempo nas mesmas condições miseráveis que vocês estão felizes agora, com os corações cheios de amor por Aquele que os amou primeiro, e os lavou de seus pecados com seu próprio sangue, regozijando-se na esperança de ver a glória de Deus. Como é terrível ser deixado para trás num dia assim! Ver os outros se banqueteando, enquanto vocês estão penando e se definhando! Ver os outros se regozijando e cantando com alegria no coração, enquanto vocês só têm motivos para prantear por causa do sofrimento de seus corações, e de lamentar por causa das aflições e vossas almas! Como podem vocês descansar por um momento sequer em tal estado de alma? Será que vossas almas não são tão preciosas como as almas daqueles que, dia a dia, estão se juntando ao rebanho de Cristo?
Não existem, porventura, muitos que, apesar de estarem há longo tempo neste mundo, até hoje não nasceram de novo, e por isso são estranhos à comunidade de Israel, e nada têm feito durante a vida, a não ser acumular ira sobre ira para o dia do castigo? Oh! senhores, o caso de vocês é, sem dúvida, extremamente perigoso. A dureza de vossos corações e a vossa culpa são imensas. Acaso vocês não vêem como geralmente pessoas de vossa idade são deixadas para trás na dispensação da misericórdia de Deus? Vocês precisam refletir e despertar de vosso sono, pois jamais poderão suportar a fúria e a ira do Deus infinito. E vocês que são rapazes e moças, irão negligenciar este tempo precioso que desfrutam agora, quando tantos outros jovens de vossa idade estão renunciando às futilidades da juventude e acorrendo céleres a Cristo? Vocês têm neste momento uma oportunidade, mas se a desprezarem, sucederá o mesmo que agora está acontecendo com todos aqueles que gastaram em pecado os dias mais preciosos de sua mocidade, chegando a uma terrível situação de cegueira e insensibilidade. E vocês crianças, que não se converteram ainda, não sabem que estão indo para o inferno onde sofrerão a horrenda ira daquele Deus que agora está encolerizado contra vocês dia e noite? Será que vocês ficarão felizes em ser filhos do diabo, quando tantas outras já se converteram e se tornaram filhos santos e alegres do Rei dos reis?
Queira Deus todos aqueles que ainda estão fora de Cristo, pendentes sobre o abismo do inferno, quer sejam senhoras e senhores idosos, ou pessoas de meia idade, quer jovens ou crianças, que possam dar ouvidos agora aos chamados da Palavra e da providência de Deus. Este ano aceitável do Senhor que é um dia de grandes misericórdias para alguns, sem dúvida será um dia de extremo castigo para outros. Quando negligenciam suas almas os corações dos homens se endurece, e a sua culpa aumenta rapidamente. Podem estar certos, porém, que agora será como foi nos dias de João Batista. O machado está posto à raiz das árvores; e toda árvore que não produz fruto, deve ser cortada e lançada no fogo.
Portanto, todo aquele que está fora de Cristo, desperte e fuja da ira vindoura. A ira do Deus Todo-poderoso paira agora sobre todos os pecadores. Que cada um fuja de Sodoma: " Livra-te, salva a tua vida; não olhes para trás, nem pares em toda a campina; foge para o monte, para que não pereças ."
E assim, conhecendo o temor do Senhor, persuadimos aos homens”. “De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus”. (II Coríntios 5.11-20; 6.2). “Buscai o Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto. Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo os seus pensamentos; converta-se ao Senhor, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar” . (Isaías 55.6-7). Amém.

http://www.monergismo.com/textos/advertencias/pecadores_maos_deus_irado.htm

terça-feira, 16 de abril de 2013

Débora - Juíza e Profetisa de Israel


 Débora viveu no período dos juízes, período da história de Israel cuja duração é incerta e fomenta muitas discussões entre os estudiosos da Bíblia, que transcorreu entre a morte de Josué, após a conquista da Terra, e a escolha de Saul como rei. Levando-se em conta que a Bíblia afirma que o templo começou a ser construído 480 anos depois da saída dos filhos de Israel do Egito, no quarto ano do reinado de Salomão(I Rs.6:1). Assim, levando-se em conta que o êxodo durou 40 anos (Dt.2:7; At.7:36), que Josué morreu com 110 anos (Jz.2:8) e deve ter entrado na Terra Prometida com cerca de 80 anos (levando-se em conta o que diz Calebe em Js.14:10), o que demonstra ter Josué governado cerca de 30 anos na Terra Prometida, bem como que os reinados de Saul e de Davi duraram 40 anos (respectivamente At.13:21 e II Sm.5:4), temos que o período dos juízes tenha tido uma duração de aproximadamente 326 anos.

- O período dos juízes é um dos períodos de grande dificuldade espiritual para o povo de Israel. O autor do livro dos juízes(a tradição judaica atribui o livro a Samuel) narra toda esta dificuldade na passagem de Jz.2:7-23, que é uma espécie de resumo do conteúdo de todo o livro, que, aliás, não abarca todo o período dos juízes, vez que os governos dos dois últimos juízes, Eli e Samuel, é narrado no Primeiro Livro de Samuel, em seus sete primeiros capítulos.

- O primeiro problema deste período, afirmam-nos as Escrituras Sagradas, foi a falta de educação doutrinária do povo nos seus lares. Em Jz.2:7-10, é dito que, durante os dias de Josué e dos anciãos de sua geração, o povo de Israel serviu a Deus, mas, enquanto seguiam o exemplo daqueles homens que haviam conquistado a Terra Prometida, que haviam sido doutrinados por Moisés pouco antes da morte deste, conforme vemos nos discursos do livro de Deuteronômio, da geração que, após a conquista de boa parte da Terra, foi levada a reafirmar o pacto com Deus por iniciativa de Josué (Js.24), não se deu continuidade ao ensino da lei, como, aliás, havia sido determinado por Moisés (Dt.6:6-9).

- A falta de um ensino doutrinário nos lares dos israelitas, a ausência de uma educação bíblica dos pais aos filhos foi o primeiro fator que levou Israel a viver um período tão difícil como foi o período dos juízes, um período onde havia instabilidade espiritual, onde o povo permitiu que os costumes dos povos que habitavam a terra se introduzissem no meio do povo de Deus, um período em que a liberdade e o bem-estar foram exceção, verdadeiros oásis num deserto de sofrimentos, opressões e domínio estrangeiro.

- Esta mesma circunstância, a propósito, vivemos nos dias atuais na Igreja. Há uma grande negligência por parte dos pais no ensino bíblico para seus filhos. Não há mais culto doméstico nos lares, não há mais momentos de adoração a Deus, não há qualquer ensino das Escrituras nas casas dos crentes. Pais e filhos pouco se conversam e servir a Deus em conjunto, no lar, então, é uma raridade. O resultado é a instabilidade espiritual da igreja, a introdução do mundanismo e o desvirtuamento de grande parte de nossas crianças, adolescentes e jovens. Voltamos a viver o difícil tempo dos juízes.

- Sem educação, sem ensino, o povo desvia-se espiritualmente. Como a geração que seguiu a dos conquistadores de Canaã “não conhecia ao Senhor nem tampouco a obra que fizera a Israel”, “fizeram os filhos de Israel o que parecida mal aos olhos do Senhor e serviram aos baalins”. O resultado da falta de educação doutrinária no lar é um só: a mistura com o pecado e com o mundo, o desvio espiritual.

- Esta situação foi uma constante durante todo o período dos juízes. Como não havia educação doutrinária no lar, o que somente começou a se alterar nos dias de Samuel, o último juiz, o povo crescia sem o conhecimento da lei e partia para uma vida de pecado e de mistura com os costumes idolátricos dos povos que antes habitavam a Terra Prometida.

- Surge, então, o segundo fator que caracterizou este período. O fato de os israelitas não terem obedecido a Deus e ter deixado alguns cananeus, heteus, heveus, amorreus, girgaseus, ferezeus e jebuseus, que antes habitavam Canaã, fossem mantidos vivos após a conquista por parte de Israel. Deus havia ordenado a completa destruição desta gente (Dt.7:1-5), mas os israelitas preferiram receber tributos destes povos a destruí-los, o que foi objeto de dura repreensão por parte do Senhor, ainda nos dias de Josué (Jz.2:1-6). O resultado desta desobediência foi a criação de um laço que permitiu que Israel sucumbisse ao pecado e à idolatria.

- Deus havia mandado que o povo exterminasse estes povos da Terra por dois motivos: o primeiro, a injustiça destes povos havia chegado à medida do limite da paciência divina (Gn.15:16); segundo, o povo tinha de se manter separado das demais nações, pois era propriedade peculiar do Senhor (Dt.7:6; Ex.19:5,6). Assim, Israel deveria cumprir a vontade de Deus, executando a Sua justiça, como também impedir de se misturar com tão grandes pecadores.

- No entanto, Israel não fez isto e, ainda nos dias de Josué, Deus disse que não mais conseguiriam expelir aqueles povos do meio deles e eles lhes seriam por laço, por verdadeira pedra de tropeço. A convivência com estes povos, que eram mais adiantados do que os hebreus em vários aspectos (a Bíblia, mais de uma vez, mostra que os povos tinham o domínio de uma tecnologia que os israelitas não conheciam, notadamente no que respeita ao uso de metais – Jz.1:19; 4:3; I Sm.13:10), levou os israelitas a se misturar com os seus costumes e com a sua idolatria, perdendo a santidade e se tornando abomináveis ao Senhor (Jz.2:13-15).

OBS: Por oportuno, devemos observar que a Bíblia dá conta desta vantagem tecnológica dos povos que habitavam Canaã antes da conquista de Israel, vantagem esta que também possuíam os filisteus, outro povo que veio habitar a região. Assim, recentes descobertas arqueológicas, que dão conta destas vantagens tecnológicas, estão a confirmar e não a negar o texto bíblico, como se publicou equivocadamente na imprensa recentemente, mais precisamente na edição 45 de História Viva (julho de 2007).

- Esta mesma situação vive-se atualmente no “Israel de Deus”(Gl.6:16), ou seja, a Igreja, igualmente uma nação santa (I Pe.2:9), que está no mundo, mas não é do mundo (Jo.17:11, 14,16) e, portanto, deve viver separada do pecado, embora no meio dos pecadores. Infelizmente, muitos, assim como os israelitas dos tempos dos juízes, não conseguem se manter separados, santificados, misturando-se com o mundo e com o pecado, fazendo com que a ira de Deus caia sobre eles, pois, não nos iludamos, Deus não mudou e a Sua ira continua a se voltar contra os pecadores (Rm.1:18; Ef.5:6; Cl.3:6).

OBS: Sugerimos, a propósito, a leitura do famoso sermão do pastor norte-americano Jonathan Edwards, “Pecadores nas mãos de um Deus irado”, que, apesar de sua idade, foi proferido em 8 de julho de 1741, continua extremamente atual. Para quem se interessar, este sermão pode ser lido, em português, entre outros endereços, em http://www.monergismo.com/textos/advertencias/pecadores_maos_deus_irado.htm.

- Sem ensino e não tendo se separado dos povos idólatras à sua volta, os israelitas, no tempo dos juízes, não reconheciam o senhorio de Deus nas suas vidas e faziam o que bem entendiam, numa verdadeira anarquia. “Naqueles dias, não havia rei em Israel, porém cada um fazia o que parecia reto aos seus olhos” (Jz.21:25). Esta é a forma triste com que se encerra o livro dos Juízes, resumindo o desgoverno em todos os aspectos daquele período. Sem a lei do Senhor, o povo escolhido de Deus vivia numa verdadeira baderna, era uma “casa da mãe Joana”. Que situação lamentável para uma nação que havia se tornado a menina dos olhos de Deus entre os povos!

- De igual forma, esta é a situação em que fica a Igreja quando abandona o seu Senhor e passa a fazer o que quer, amontoando doutores conforme a sua própria concupiscência (II Tm.4:3,4). Uma confusão sem igual, uma verdadeira “bagunça espiritual”, um local onde o inimigo “deita e rola”, “faz e acontece”, como, aliás, bem nos esclarece o apóstolo Pedro (II Pe.3:12-22) e o próprio Senhor Jesus (Lc.11:24-26). Vivemos dias em que alguns falsos servos de Deus apregoam uma liberdade ilimitada na graça, uma suposta superioridade espiritual que lhes permite fazer tudo o que bem entendem, chamando todos aqueles que se lhes opõem de “legalistas”, de “ultrapassados”, de “fracos na fé”. Entretanto, esta “liberdade” é anarquia, é fruto de uma vida pecaminosa, totalmente comprometida com o mundo e que revela tão somente aquela mesma filosofia de rebeldia contra Deus que encontramos nos tempos dos juízes, atitude que apenas desperta a ira divina e nada mais. Afastemo-nos deste tipo de gente antes que seja tarde demais (II Tm.3:5 “in fine”) !

- Uma quarta característica destes dias tão difíceis em que viveu Débora era o sofrimento, o castigo divino. Por causa do pecado e da desobediência, Deus, diante do Seu compromisso com Israel, permitia que o povo passasse por dominação estrangeira, que sofresse a opressão do inimigo. Durante todo este período, geração após geração, não houve uma geração sequer que não tenha sido dominada por um povo estrangeiro. Nos dias de Débora, por exemplo, eram os cananeus, sob a liderança de Jabim, com seus carros de ferro, quem dominaram sobre os israelitas, durante um período de vinte anos (Jz.4:1-3).

- Deus permitia que o povo sofresse para que eles pudessem se arrepender dos seus pecados. Na verdade, não fossem estas opressões, estas gerações deste período teriam todas se perdido, mas, aprouve o Senhor permitir que fossem oprimidas pelos inimigos, pois, assim, cada geração teve a oportunidade de se salvar, tanto que, pelo que vemos da narrativa do livro dos Juízes, todas elas, no sofrimento, voltaram-se para o Senhor e a Ele clamaram, tendo Deus, em todas as vezes em que isto ocorreu, levantado libertadores para povo, os juízes, que dão título ao livro.

- Temos, então, que o arrependimento dos pecados, no período, deu-se apenas como reação ao sofrimento, ao castigo divino. Daí vermos que, muitas vezes, somente o castigo divino permite a reconciliação com o Senhor, motivo por que, apesar do castigo, devemos sempre ver que a punição é mais um aspecto da bondade e do amor de Deus. Deus castiga porque ama, porque é Pai e nos escolheu como Seus filhos (Hb.12:6-11). Ante a falta de educação bíblica no lar e a ausência de santificação, não havia outra lição pedagógica para Deus senão o castigo, senão o sofrimento. Que aprendamos isto, se quisermos evitar sofrimentos e castigos ao longo de nossa jornada para o céu.

- Quando o povo se arrependia dos seus pecados, pedia perdão ao Senhor e clamava por libertação, o Senhor, mantendo a Sua fidelidade, levantava libertadores para libertar o povo (Jz.2:16,18). Deus jamais negou auxílio ao Seu povo e, havendo arrependimento sincero, destrói todos os obstáculos e concede a vitória aos Seus servos. Mas, para tanto, necessário se faz o arrependimento, pois Deus não ouve a quem não abandona os seus pecados (Is.59:2). Deus ainda inclina os Seus ouvidos para ouvir o gemido do Seu povo, continua o mesmo, mas se faz necessário que nos santifiquemos. Estamos em condição de ser ouvidos por Deus?

- Infelizmente, até os dias de Samuel, a libertação valia apenas para aquela geração, pois se manteve a negligência no ensino bíblico, de sorte que, num círculo vicioso, tudo começava novamente (Jz.2:19). Que Deus nos guarde de cairmos neste círculo vicioso, até porque a nossa responsabilidade, enquanto Igreja, é bem maior que a de Israel, pois, enquanto Deus falava aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos, pelo próprio Filho (Hb.1:1). “Vede que não rejeiteis ao que fala; porque, se não escaparam aqueles que rejeitaram o que na terra os advertia, muito menos nós, se nos desviarmos dAquele que é dos céus, a voz do qual moveu então a terra, mas agora anunciou, dizendo: ainda uma vez comoverei, não só a terra, senão também o céu. E esta palavra: ainda uma vez, mostra a mudança das coisas móveis, como coisas feitas, para que as imóveis permaneçam. Pelo que, tendo recebido um reino que não pode ser abalado, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus agradavelmente com reverência e piedade, porque o nosso Deus é um fogo consumidor” (Hb.12:25-29).

II – A BIOGRAFIA DE DÉBORA(I) – UMA MULHER PROFETISA E JUÍZA EM ISRAEL

- Era este o estado de coisas na vida de Israel quando surge a figura de Débora no texto sagrado. “Débora” (em hebraico, “Devorá”) significa “abelha” e, segundo o site www.iremar.com.br, “…designa uma pessoa que possui uma força de vontade excepcional. Ela luta com grande determinação para alcançar seus objetivos. Embora muito cautelosa, quando confia em alguém se revela uma companheira doce e amigável” (http://www.iremar.com.br/index.php?q=d%E9bora&con=conexao&inc1=header&inc2=footer&banner=rodape&site=nomes Acesso em: 27 jun. 2007).

- A Bíblia muito pouco fala sobre a vida de Débora. Surge ela, no texto sagrado, pela vez primeira, em Jz.4:4 e, fora esta passagem histórica do período de seu ministério, nada mais se fala sobre ela nas Escrituras. Sabemos, apenas, que ela era profetisa, mulher de Lapidote (em hebraico, “Lapidot”, cujo significado é “tochas”) e que julgava a Israel, entre Ramá e Betel, nos montes de Efraim, o que nos dá a entender que era da tribo de Efraim. Os estudiosos da Bíblia costumavam datar este período por volta de 1.120 a.C.

- Israel vivia um período difícil quando Débora aparece no cenário da história sagrada. Depois da morte de Eude, o segundo juiz de Israel, que os havia libertado do domínio de Eglom, rei de Moabe, o povo voltou a pecar e a transgredir a lei do Senhor, prova de que os 80 anos de sossego dados pelo Senhor (Jz.3:30), não forma suficientes para que o povo instituísse a necessária educação doutrinária nos lares, mantendo uma vida negligente de adoração a Deus. Nesse meio tempo, aliás, levantou-se um outro libertador em Israel, Sangar, filho de Anate, que teve grande vitória contra os filisteus, que ainda não haviam se tornado o principal inimigo de Israel (Jz.3:31).

- A situação de prosperidade fez com que o povo se esquecesse do Senhor e, por causa disso, Deus permitiu que novo período de opressão (o terceiro desde a morte de Josué) viesse sobre Israel. Desta feita, foram os cananeus, sob a liderança de Jabim, que deles se fez rei, tendo à frente de seu exército Sísera e reinando na cidade de Hazor, que conseguiu dominar os israelitas, dominação que durou longos 20 anos. O povo, então, clamou ao Senhor, pedindo por libertação (Jz.4:3).

- Apesar de sucinto, o texto bíblico muito nos fala a respeito de Débora. Em primeiro lugar, afirma que “naquele tempo”, Débora julgava a Israel. A ênfase do texto sagrado para indicar que era “naquele tempo”, mostra-nos que Débora era uma pessoa totalmente diferente das pessoas de sua geração. Não se sabe a idade de Débora, mas não era uma pessoa muito jovem. Casada, julgando as causas do povo, Débora não devia ser senão uma mulher de uma certa idade, a ponto de ser chamada de “mãe em Israel” (Jz.5:7). Assim, tudo indica que nasceu e viveu boa parte do período de “80 anos de sossego”, não tendo, porém, se deixado levar pelos costumes dos gentios.

- Débora não só não se deixou misturar com o pecado dos povos que vivem no meio do povo de Israel, como também buscou de forma bem intensa ao Senhor, a ponto de ser uma “mulher profetisa”. No texto sagrado, é a segunda profetisa que surge, a primeira na Terra Prometida, pois a primeira que assim é mencionada é Miriã, a irmã de Moisés (Ex.15:20). Esta busca a Deus em meio a um povo corrompido demonstra a grande firmeza de caráter de Débora é o segredo de sua coragem, a virtude que foi destacada pelo Setor de Educação Cristã para nosso aprimoramento neste trimestre letivo da Escola Bíblica Dominical.

- A primeira qualidade de Débora que o texto sagrado destaca é o fato de ser “mulher profetisa”, circunstância que vem antes até do nome do seu marido, a demonstrar que, ante os olhos de Deus, mais valem as características espirituais do que as obtidas sobre a face da Terra. Débora era uma “mulher profetisa”, alguém que tinha se tornado porta-voz de Deus em meio a um povo pecador e idólatra. Que firmeza demonstrou Débora para servir a Deus em meio a uma geração perversa. Quantas lutas Débora enfrentou, quanto teve de renunciar para se manter separada do pecado e do mundo. Mas tudo isto levou a pena, porque Deus tinha uma comunhão toda especial com a Sua serva, fazendo-lhe Seu porta-voz, pois, em sendo Débora profetisa, não havia segredos entre ela e Deus (Am.3:7).

- Débora distinguiu-se no meio daquele povo pecador. Por ter decidido servir a Deus, apesar de todas as circunstâncias adversas, mostrou ser uma pessoa diferente e, pouco a pouco, o povo pôde perceber que ali estava uma mulher de Deus, uma mulher onde habitava o Espírito Santo (numa época, aliás, em que o Espírito estava sob medida, atuava limitadamente, não como hoje, em que foi derramado). Não foi fácil obter este reconhecimento por parte do povo de Israel. Além de se estar diante de um povo rebelde e pecador e que, portanto, não tinha discernimento espiritual, Débora era uma mulher e, como tal, alvo de todo o desprezo que a cultura hebraica devotava às mulheres, ainda que, reconheçamos, eram os israelitas o povo que melhor tratava a mulher na Antigüidade.

- Embora seja uma conseqüência do pecado a desigualdade de tratamento que há entre homens e mulheres (Gn.3:16), e até por causa disto, não pode o povo de Deus proceder com atitudes discriminatórias em razão do gênero. Para Deus, não há acepção de pessoas (Dt.10:17; II Cr.19:7; At.10:34), de modo que o Seu povo, que segue o Seu exemplo (I Co.11:1), não pode fazer qualquer distinção entre homens e mulheres, a não ser as diferenças próprias de cada sexo. Não há superioridade entre o homem e a mulher, devendo ambos ser tratados igualmente na Igreja, cada qual na sua função, conforme determinado pelo Senhor.

- Entre os israelitas, como também na Igreja, este tratamento imparcial e sem acepção encontra grande resistência cultural. É sabido que, apesar de a Bíblia ser clara ao dizer que tanto homem quanto mulher são imagem e semelhança de Deus (Gn.5:1,2), até hoje há uma bênção judaica, proferida diariamente, em que o judeu agradece a Deus por não ter nascido gentio, escravo nem mulher. Tal bênção, que sempre causou grande dificuldade de explicação entre os rabinos, não deixa de ser uma prova da resistência cultural, dos resquícios da situação resultante do pecado.

- O texto sagrado demonstra que Débora era “mulher profetisa”, ou seja, diante de Deus, não há acepção entre homem e mulher no que respeita ao relacionamento com o Senhor. Débora decidiu servir ao Senhor em meio a uma geração perversa e, com tal intensidade, que se tornou porta-voz de Deus. Era, sim, u’a mulher, e o texto bíblico não omite esta circunstância, mas a sua fidelidade a Deus foi tanta que, apesar de todas as circunstâncias culturais adversas, pôde não só ser reconhecida como profetisa, mas, também, passar a julgar o povo.

- Na sua dedicação a Deus, Débora passou a ter o discernimento espiritual necessário para julgar as causas mais difíceis que havia no meio do povo e, por isso, acabou se impondo como juíza em Israel. Não eram os homens que reconheciam esta ou aquela pessoa como juiz, mas tudo era resultado de uma vida de comunhão com o Senhor. Como vimos supra, era o Senhor quem levantava o juiz, pois era Deus quem reinava sobre o povo, tanto que, quando o povo de Israel pediu um rei, ato que pôs fim a este período, o próprio Deus disse ter sido Ele o rejeitado e não, Samuel (o último juiz) (I Sm.8:7). O juiz tornava-se notável, isto é, passível de ser notado como alguém que tinha o Espírito de Deus, por causa de sua vida exemplar, de seu testemunho (cfr. I Sm.3:19,20).

- Assim ocorreu com Débora, que passou a ser considerada pelo povo como juíza em Israel por causa do seu testemunho e de sua vida espiritual. No povo de Deus, devemos nos sobressair por causa do nosso testemunho, de nosso atendimento ao chamado do Senhor e não o contrário, ou seja, alguém se impor por causa de seu parentesco, de seus relacionamentos de amizade para só depois buscar a presença de Deus. Por causa disto há muitos escândalos e muitos fracassos no meio do povo do Senhor, mas, sem olharmos para os valores humanos, busquemos ter discernimento espiritual para vermos quem são os “profetas”, quem são os chamados do Senhor para esta ou aquela tarefa no meio do Seu povo, pois a Igreja é um povo guiado pelo Espírito Santo (Jo.14:26; Rm.8:14).

- O fato de Débora ser chamada no texto de “mulher profetisa” e, logo a seguir, ser dito que era “mulher de Lapidote”, também nos revela algo muito importante: o fato de Débora ser uma profetisa, ter sido elevada a juíza de Israel, não alterou a sua posição na sociedade. Débora alçara uma posição que jamais uma mulher havia obtido e que jamais viria a obter novamente na história de Israel daquele período. No entanto, isto não modificou a sua qualidade de “mulher” e de “mulher de Lapidote”. A igualdade diante de Deus não significa igualitarismo, ou seja, a idéia de que “todos são iguais”, muito divulgada em os nossos dias. Homem e mulher são iguais diante de Deus, mas são diferentes, aliás, não há um ser humano igual a outro sobre a face da Terra.

- Débora não havia deixado de ser “mulher”, nem de ser a “mulher de Lapidote”, ou seja, mantinha sua condição de mulher e, como tal, com deveres e funções diferentes da dos homens e das de seu marido. Débora não era uma “feminista”, que defendia que as mulheres são iguais aos homens e que não há qualquer diferença entre os dois gêneros. Débora é um exemplo de que, diante de Deus, não há acepção de pessoas, mas que cada um mantém a sua individualidade, individualidade esta que deve ser respeitada e, mais, que homem e mulher são diferentes, tendo atividades e funções peculiares a cada gênero.

- O texto sagrado diz que Débora foi levantada como “mãe” em Israel. Ora, somente uma mulher poderia ser “mãe”. Esta é mais uma demonstração de que a igualdade diante de Deus, o tratamento imparcial que se deve dar a todo ser humano, sem discriminação, não significa deixar de reconhecer as diferenças que existem entre os gêneros e as funções distintas que só um gênero pode exercer.

III – A BIOGRAFIA DE DÉBORA(II) – O CHAMADO PARA A BATALHA E O CÂNTICO DA VITÓRIA

- Tanto assim é que Débora, embora fosse juíza em Israel, chamou a Baraque, filho de Abinoão, de Quedes de Naftali, para que comandasse o povo de Israel na guerra contra Jabim. Por que Deus mandou que Débora chamasse Baraque, se era ela a profetisa e a juíza em Israel? Porque o comando militar não era adequado nem apropriado para u’a mulher como Débora, já de certa idade e cuja condição de mulher não lhe permitia dirigir uma guerra. Temos aqui, portanto, uma clara demonstração que contesta tanto as “feministas” como os “machistas”.

- Como é bom quando somos guiados por Deus, o único ser que conhece a estrutura de cada um (Sl.103:14), o único que conhece o coração de cada ser humano (I Sm.16:7; Jo.2:25). Débora, por ser guiada pelo Espírito de Deus, pôde saber quem era o homem mais valoroso, mais adequado para liderar a guerra contra Jabim, cujo exército, diz-nos o texto sagrado, era extremamente bem equipado, com carros de ferro, que o fazia praticamente imbatível naquele tempo. Débora, vivendo nos montes de Efraim, não tinha, a não ser pelo Espírito de Deus, saber que um homem de Quedes de Naftali seria o ideal para o comando da peleja, mas Deus, que cuida do Seu povo e sabe as qualidades de cada um, pôde fazer esta indicação.

- Débora não queria ir à batalha. Sabia que não tinha condição nem preparo para liderar uma guerra. Por isso, sabendo que esta era uma típica função masculina, guiada pelo Espírito de Deus, chamou a Baraque, que foi tão somente o comandante do exército de Israel e não juiz, como alguns israelitas “machistas” insistem em afirmar ao escreverem a história sagrada.

- Débora convoca Baraque e diz que ele deveria atrair gente de Naftali e de Zebulom, dez mil homens, no monte Tabor, para a batalha contra as tropas de Sísera, a ser travada no ribeiro de Quisom. Em primeiro lugar, devemos observar que se exigiu de Baraque que “atraísse gente”, a sua própria gente, a gente da tribo de Naftali, bem como a tribo vizinha de Zebulom. Deveria ser uma forte atração, pois estes dez mil homens deveriam ser reunidos no monte Tabor, “…uma colina de certa proeminência, localizada cerca de 16 km a sudoeste do mar da Galiléia, no vale de Jezreel. Chega a 562m de altitude, acima do nível do mar. Suas vertentes são muito inclinadas, e em vários lugares da ascensão, divisam-se paisagens espetaculares.…” (Russell Norman Champlin, Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia(São Paulo: Hagnos, 2001), v.4, p.353).

- Esperava-se de Baraque, portanto, que tivesse grande “poder de atração” , pois deveria convencer cerca de dez mil homens, num período de uma cruel opressão, com inimigos muito bem armados, a subir um monte, cuja subida era difícil, aos olhos do adversário, ou seja, que houvesse uma disposição firme para lutar, pois só a reunião já seria considerado um ato de guerra por Jabim e Sísera (cfr. Jz.4:12,13). Esta disposição firme era a coragem, não só de Baraque, mas de todos os soldados que viessem a ele.

- É interessante observar que, para demonstrar coragem, o povo deveria subir até o monte Tabor (que, pela tradição, é apontado como tendo sido o monte da Transfiguração), ou seja, mostrar-se a todos como pessoas dispostas a lutar contra o inimigo. Temos tido este mesmo propósito em nossas vidas? Jesus disse que somos a luz do mundo e não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte (Mt.5:14). Neste mundo, devemos resplandecer como astros no mundo num meio de uma geração corrompida e perversa (Fp.2:15).

- Exigia-se, pois, de Baraque e de todos os que se juntassem a ele a mesma postura que Débora tinha tido até ali. Por ser fiel a Deus e não ter se contaminado com o pecado dos povos à sua volta, Débora tinha se tornado uma profetisa e juíza em Israel e, agora, como o povo havia se arrependido dos seus pecados e clamado a Deus, fazia-se necessário que, também, fossem eles corajosos o suficiente para romper com o pecado e “subir o monte Tabor”, demonstrar disposição firme de romper com o pecado, com o mundo, com o inimigo.

- Baraque estava disposto a fazê-lo, mas disse que se Débora não fosse com ela, não iria (Jz.4:8). Aqui vemos um outro motivo pelo qual Débora estava a julgar a Israel naquele tempo. Não havia homem algum disposto a assumir, sozinho, o comando para libertar Israel. Baraque fora escolhido por Deus como comandante porque era o indivíduo mais corajoso, o mais valoroso de todos os homens de Israel. Se ele não se mostrava a disposto a ir sozinho, sem a companhia de Débora, temos que nenhum homem, naquele tempo, tinha tal disposição. Todos os homens eram “frouxos” e, como nos ensina Salomão, “se te mostrares frouxo no dia da angústia, a tua força será pequena” (Pv.24:10).

- A ascensão de Débora à posição de juíza em Israel está relacionada com a “frouxidão”, a “fraqueza”, a “vacilação” dos homens de seu tempo. O homem mais valoroso, que era Baraque, era “fraco”, estava “vacilante”, não demonstrava “firmeza”, mesmo tendo sido convocado pela profetisa, por alguém que tinha plena comunhão com Deus. Como não havia homens dispostos a ser firmes na Sua presença, Deus levantou u’a mulher para este papel.

OBS: A palavra hebraica utilizada em Pv.24:10 é “raphah”, cujo significado é “relaxar”, “enfraquecer”, “sucumbir”, ou seja, a idéia nitidamente é de enfraquecimento, de perda de firmeza, de falta de coragem.

- Débora fora levantada como “mãe em Israel” porque não havia homem algum disposto a ser corajoso, porque faltavam homens firmes e Deus não Se prende ao homem e às suas limitações para cumprir os Seus compromissos. Deus tinha um pacto com Israel e, por isso, mister se fazia levantar um libertador para o povo. Como não havia homem disposto, Deus levantou u’a mulher.

- Originariamente, o homem foi posto como cabeça da mulher (I Co.11:3), mas se ninguém se puser na brecha (Ez.22:30), Deus levantará mulheres, pois a Sua obra tem de ser realizada. Isto ocorreu não só na história de Israel, como na história da Igreja, onde, por diversas vezes, o Senhor, ante a inoperância masculina, levantou mulheres para exercer funções que, a princípio, eram destinadas aos homens. Assim é que, por exemplo, o “movimento de santidade”, base do avivamento pentecostal, teve como figuras proeminentes as pessoas de Sarah Worrall Lankford , Phoebe Palmer (1807-1874) e de Hannah Whitall Smith (1832-1911), sem falar na figura importante de Frida Vingren (1891-1940), esposa do missionário Gunnar Vingren e cuja atuação foi de extrema relevância na história das Assembléias de Deus no Brasil.

- O compromisso de Deus é com o Seu povo e a Sua Palavra e, para tanto, busca homens e mulheres dispostos a fazer a Sua obra. Se os homens se mostrarem “frouxos”, o Senhor levantará mulheres, ainda que em funções que, a princípio, seriam destinadas aos homens. Débora é um exemplo e, por isso, foi ela para a batalha, embora o comando estivesse com Baraque e, também por causa disso, u’a mulher, Jael, foi a responsável pela morte de Sísera e, por isso, a honra por esta vitória militar ficou com as mulheres e não com os homens.

- Baraque deveria atrair gente para o monte Tabor, mas a batalha se daria no ribeiro de Quisom, ao pé do monte Carmelo, para onde o Senhor atrairia Sísera e seu exército (Jz.4:7). Enquanto que, para demonstrar disposição para a luta, deveriam os valentes se apresentar no monte, para a batalha, escolheu-se um vale. Devemos nos mostrar como luzes do mundo, mostrar a todos que somos servos do Senhor, mesmo num meio de uma geração perversa e corrompida, mas, no dia-a-dia da luta contra o mal, nos embates, devemos descer no vale, no ribeiro, para que só o nome do Senhor seja glorificado. O servo do Senhor não deve querer aparecer, mas ter, em seu coração, sempre as palavras do Batista: “É necessário que Ele cresça e que eu diminua”(Jo.3:30). Baraque só venceu quando, juntamente com seus soldados, desceu do monte (Jz.4:14).

- Ser corajoso, com se vê, é se manter firme aos pés do Senhor, mostrar-se diante do inimigo, mas jamais atacar ou lutar sem a devida direção divina. Baraque deveria lutar somente após o Senhor ter atraído o inimigo até o ribeiro de Quisom. Devemos, também, nas lutas de cada dia, somente atacar quando e onde o Senhor nos mandar. Resistir ao diabo para que ele fuja de nós exige, antes, que nos sujeitemos a Deus, que sigamos a Sua orientação (Tg.4:7). Jesus, quando enfrentou o diabo, fê-lo porque estava conduzido pelo Espírito Santo (Mt.4:1).

- A vitória de Baraque esteve vinculada à obediência com relação ao momento e ao local indicados pelo Senhor para a batalha. Baraque somente desceu do monte Tabor com seus homens quando Débora lhe disse que era aquele o dia em que o Senhor havia determinado a vitória sobre o inimigo (Jz.4:14). Devemos saber que há um tempo determinado para todo propósito debaixo do céu (Ec.3:1) e devemos estar em perfeita sintonia com o Senhor, para fazer a Sua vontade. Por isso, devemos ter comunicação com Ele, comunicação esta que somente se estabelece mediante a oração, o jejum e a meditação na Bíblia Sagrada. Não é por outro motivo que o Senhor nos ensinou a orar pedindo que a vontade de Deus seja feita na terra como no céu (Mt.6:10).

- Quando Baraque obedeceu ao Senhor e desceu até o ribeiro de Quisom, tem-se que o Senhor agiu, pois, como bem sabemos, embora tenhamos de estar preparados para a batalha, a vitória vem do Senhor (Pv.21:31). A vitória militar era impossível aos olhos humanos, diante da superioridade do exército de Sísera, mas, quando Baraque desceu para o ribeiro de Quisom, este, inexplicavelmente, inundou a região, fazendo com que os carros de Sísera se tornassem um entrave e se criasse uma confusão que foi suficiente para que Baraque pudesse ter vantagem sobre o inimigo (Jz.5:21,22).

- Deus tinha compromisso com o Seu povo, tinha de libertá-lo, mas, para tanto, era preciso que o povo se dispusesse a servi-lO, seja se arrependendo dos seus pecados, seja se dispondo a ir para a batalha. Por isso, Débora, em seu cântico, que é um dos mais antigos textos conhecidos em hebraico, afirma, em primeiro lugar, que se deveria louvar a Deus porque os chefes haviam se posto à frente e o povo se oferecido voluntariamente (Jz.5:2).

- Mas, como havia sido dito por Débora, apesar da vitória cabal conseguida pelo exército de Baraque, Sísera conseguiu fugir e acabou sendo morto por Jael, mulher de Heber, que era queneu, ou seja, descendente do sogro de Moisés, Jetro, povo que veio morar juntamente com os israelitas desde aquele tempo. A honra pela vitória militar, portanto, ficou com uma mulher.

- No cântico em que Débora louva ao Senhor pela vitória, cântico que, como toda obra do gênero no Antigo Testamento, é, na verdade, uma mensagem inspirada pelo Espírito Santo, Débora nos mostra que, enquanto Baraque atraíra os soldados das tribos de Naftali e de Zebulom, a profetisa conseguira o apoio das tribos de Efraim, Benjamim e da meia tribo de Manassés (Maquir, nome do filho de Manassés) e Issacar.

- Entretanto, a meia de tribo de Manassés, que ficava do outro lado do Jordão, Ruben, Dã e Aser não ajudaram na peleja, preferiram manter-se sob a escravidão. A profetisa, em nome do Senhor, censura este povo, que, lamentavelmente, tipifica muitos que, na atualidade, preferem se manter sob o domínio do mal e do pecado a se dispor voluntariamente a lutar contra o inimigo.

- Ruben ficou discutindo se ajudaria, ou não, e, enquanto discutiam, a peleja ocorreu, sem que eles tivessem ajudado. Ruben é o modelo dos indecisos, dos tímidos, daqueles que, por terem receio no seu coração, mostram-se fracos. Estes, como afirma o poeta sacro, não receberão o eterno galardão que o Senhor tem para dar, pois os tímidos ficarão do lado de fora da cidade celestial (Ap.21:8). Jesus repreendeu este tipo de gente, porque não têm fé (Mc.4:40) e, sem fé, é impossível agradar a Deus (Hb.11:6).

- Dã, a meia tribo de Manassés e Aser, por sua vez, em vez da indecisão de Ruben, preferiram desfrutar do que ainda possuíam a se arriscar ante o poderoso inimigo. “Detiveram-se em navios”, “assentaram-se nos portos do mar e ficaram nas suas ruínas”. Estes tipificam aqueles que preferem as bolotas que se atiram aos porcos, as ilusões deste mundo a tornarem a Deus e a se arrependerem dos seus pecados. Encontram-se presos em suas concupiscências e, em virtude disto, amam mais a glória dos homens do que a glória de Deus (Jo.12:42,43). Não querem ser expulsos da sinagoga e, por causa disto, não entrarão no céu. O verdadeiro e genuíno servo de Deus, porém, não busca a glória dos homens (I Ts.2:6), seguindo mais este exemplo do Senhor Jesus (Jo.5:41).

- Também foi alvo de censura pela profetisa a cidade de Meroz, localizada na tribo de Naftali, próxima a Quedes, cidade de Baraque, que, ao contrário dos demais naftalitas, não compareceu para a batalha, demonstrando, assim como as demais tribos, covardia e desatendimento ao chamado do Senhor (Jz.5:23). Meroz foi acremente amaldiçoada, ou seja, duramente amaldiçoada. Esta maldição mostra-nos como é grave e sério desatendermos ao chamado do Senhor, desprezarmo-lO. Como diz o escritor aos hebreus, “…mas o justo viverá da fé e, se ele recuar, a Minha alma não tem prazer nele” (Hb.10:38). Temos atendido ao chamado do Senhor para a batalha contra o mal? Ou temos preferido ver os outros lutar como o povo de Meroz?

- Débora, em seguida, no seu cântico, abençoa Jael e as mulheres, pela disposição demonstrada na batalha, pela forma como habilmente “rachou a cabeça” do inimigo, não dando a mínima chance, a mínima brecha para que ele pudesse subsistir. A bênção foi estendida também a todos os que amam o Senhor (Jz.5:31). Quem ama a Deus? Aquele que faz o que Ele manda (Jo.15:14). Somos alcançados por esta bênção divina feita pela boca de Débora?

- Neste cântico, Débora mostra que era uma mulher de Deus, que o Espírito Santo nela repousava, que se tratava de uma pessoa despertada para as coisas de Deus (Jz.5:12), que não temia falar a verdade e que nem a vitória impedia de considerar as falhas e os acertos de cada um. Era uma mulher com amplo discernimento espiritual e responsabilidade e que sabia bem delinear as responsabilidades de cada um. Por isso, tinha condições de julgar Israel, pois agia com imparcialidade, retidão e justiça.

- Como é diferente o tempo em que vivemos, onde os líderes nem sempre agem sem acepção de pessoas, com retidão e justiça, onde o favoritismo, infelizmente, é uma tônica e um modo de ação característico daqueles que estão à frente do povo de Deus. Que possam eles aprender com Débora que, sem titubear, e sob a inspiração do Espírito Santo, pôs tudo no seu devido lugar, enaltecendo aqueles que, efetivamente, cumpriram os desígnios divinos e repreendendo aqueles que não se conduziram bem na luta contra o inimigo. É esta a função de quem está à frente do povo do Senhor, é esta a função de apascentar as ovelhas: usar da vara e do cajado para que todos os santos possam se aperfeiçoar e chegar à estatura de varão perfeito, à medida de Cristo.

IV – DÉBORA – A “ABELHA” MÃE EM ISRAEL

- Neste ponto, aliás, vemos que o nome de Débora, ou seja, “abelha”, tem muito a nos ensinar sobre a personalidade desta mulher, sobre o que a Bíblia pouco fala. Como se sabe, a abelha é uma das criaturas mais impressionantes sobre a face da Terra, cuja organização social é uma lição que devemos aprender sempre.

- A abelha é enaltecida nas Escrituras por causa de sua organização social. A abelha é um animal que vive em sociedade, cuja sobrevivência é impossível de modo isolado. Elas vivem em colônias, as “colméias”, que têm cerca de 80.000 abelhas, todas elas guiadas por uma única rainha, que é a única abelha fêmea com capacidade de reprodução. Não é possível mais de uma abelha rainha em uma colméia e, se, porventura, nasce mais de uma ao mesmo tempo, elas lutam entre si até que uma morra. A unidade é o elemento que as Escrituras mais ressaltam nas abelhas (Dt.1:44; Sl.118:12).

- Esta unidade da colméia ensina-nos muito, no sentido espiritual. Débora, a abelha que Deus levantou em Israel, fez o povo compreender que deveria servir única e exclusivamente ao Senhor. No povo de Deus, temos, assim, uma verdadeira “colméia”, porque “há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos”(Ef.4:4-6).

- Débora demonstrou a importância da unidade quando determinou a Baraque que atraísse as pessoas a si, a fim de que houvesse sucesso na batalha, como também quando, em seu cântico, censurou duramente a tribo de Ruben que, por estar dividida na discussão, não pôde lutar contra o inimigo. O próprio Senhor Jesus ensinou que “Todo reino dividido contra si mesmo é devastado; e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá” (Mt.12:25). O apóstolo Tiago afirma que a situação espiritual da indecisão é desastrosa (Tg.1:6-8).

- Mas, além da unidade, as abelhas ensinam-nos a disposição para o trabalho. A quase totalidade da colméia é formada das chamadas “abelhas operárias”, abelhas sem capacidade de fecundação, que trabalham diuturnamente e cujo trabalho é indispensável para a sobrevivência da colméia. Das 80.000 abelhas de uma colméia, exceto a rainha e algumas centenas de zangões (abelhas macho, cuja função é tão somente fecundar a abelha-rainha), as demais são “operárias”, visitando cerca de 10 flores por minuto, num total de 40 vôos diários, numa vida que dura, em média, um mês e meio.

- As abelhas vivem para trabalhar e este trabalho é a razão de sobrevivência da colméia. “…Com a língua, as abelhas recolhem o néctar do fundo de cada flor e o guardam numa bolsa localizada na garganta. Depois voltam à colméia e o néctar vai passando de abelha em abelha. Desse modo, a água que ele contém se evapora, ele engrossa e se transforma em mel.…” (Abelha. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Abelha Acesso em: 28 jun. 2007). No seu trabalho, a abelha retira o néctar das flores e produz o mel, mediante a colaboração de cada abelha. Assim, também, a Igreja, em seu trabalho, deve produzir não o mel, mas algo mais doce que o mel: a Palavra de Deus (Sl.119:103). A Igreja tem a missão de pregar o Evangelho, levar a Palavra de Deus ao mundo. Débora, no seu tempo, era a porta-voz de Deus ao Seu povo. Temos sido “abelhas operárias” do Senhor?

- Outra nota sobre as abelhas diz respeito ao sistema de defesa das abelhas. “…A abelha operária (ou obreira), preocupada com sua própria sobrevivência e encarregada da proteção da colméia como um todo, tem um ferrão na parte traseira para ataque em situações de suposto perigo. Esse ferrão tem pequenas farpas, o que impede que seja retirado com facilidade da pele humana. Quando uma abelha se sente ameaçada, ela utiliza o ferrão no animal que estiver por perto. Depois de dar a ferroada, ela tenta escapar e, por causa das farpas, a parte posterior do abdômen onde se localiza o ferrão fica presa na pele do animal e a abelha perde uma parte do intestino, morrendo logo em seguida. Já ao picar insetos, a abelha muitas vezes consegue retirar as farpas da vítima e ainda sobreviver.…” (Abelha. end.cit.).

- Aqui também temos uma importante lição. A abelha, se utilizar o ferrão contra algum animal que tenha pele, morrerá por causa do uso do ferrão. Somente usa o ferrão quando está ameaçada, mas, como o ferrão tem várias farpas, parte do seu intestino sai com o ferrão e, por isso, ela acaba por morrer. De igual maneira, o servo de Deus não deve “ferroar” “animais que têm pele”, ou seja, não deve indispor-se, machucar o próximo, pois, se o fizer, certamente morrerá, pois tirará de dentro de si (o intestino representa aqui a parte interior do homem) o amor que foi derramado pelo Espírito Santo em nossos corações quando de nosso novo nascimento. Sem amor, sem ter como amar, não seremos mais filhos de Deus, teremos morrido espiritualmente (I Jo.4:8-16).

- Débora não utilizou o ferrão contra o próximo. Dedicava-se a Deus e clamava pelo povo que havia se desviado espiritualmente e o Senhor lhe fez dar a chave para a libertação, através de Baraque e da batalha de Quisom. Débora conclamou as tribos de Israel a irem para a peleja, sem levar em conta que eram pecadores e que se haviam desviado dos caminhos do Senhor. Débora amava o seu povo e queria a sua libertação. O Senhor usou o Seu ferrão contra o inimigo, através das águas de Quisom, tendo Baraque e seus soldados agido de acordo com a orientação divina, o “ferrão contra os insetos”, que não causa morte, visto que viver é seguir e observar os mandamentos do Senhor (Lv.18:5; Mt.4:4).

- Mas, ainda em relação à abelha, temos que “…a rainha é quase duas vezes maior do que as operárias e sua única função do ponto de vista biológico, é a postura de ovos, já ela é a única abelha feminina com capacidade de reprodução. A rainha nasce de um ovo fecundado, e é criada numa célula especial, diferente dos alvéolos hexagonais que formam os favos. Ela é criada numa cápsula denominada realeira, na qual é alimentada pelas operárias com a geléia real, produto riquíssimo em proteínas, vitaminas e hormônios sexuais. A geléia real é o único e exclusivo alimento da abelha rainha, durante toda sua vida. E a partir do nono dia, ela já esta preparada para realizar o seu vôo nupcial, quando, então, será fecundada pelos zangões(…). A rainha voa o mais que pode e é fecundada pelo macho que conseguir ir ter com ela.…” (Abelha. end.cit.).

- Débora era uma verdadeira “abelha-rainha” no meio do povo de Israel.Voara mais alto que os demais. Enquanto os homens e mulheres israelitas mergulhavam mo lamaçal do pecado, Débora caminhava rumo ao alto, para ter mais intimidade com o Senhor. Pensava nas coisas de cima (Cl.3:1,2), tanto que é identificada como a “mulher profetisa”, antes mesmo de ser chamada de “mulher de Lapidote”.

- O servo do Senhor deve ser alguém que pensa nas coisas que são do céu. Não deve ter sua mente voltada para as coisas desta vida, nem o seu tesouro pode estar situado nesta terra, pois, se assim proceder, não poderá subir para o céu no dia do arrebatamento da Igreja. Débora era assim, uma mulher que tinha prioridade nas coisas do céu e, por causa disto, até, foi levantada como juíza por Deus. Assim deve proceder o crente: buscar o reino de Deus e a sua justiça, a fim de que tudo o mais seja acrescentado.

- Mas, além disso, temos que a “abelha-rainha” é a única fêmea com capacidade de reprodução na colméia. Somente ela dá origem a novas abelhas e ninguém mais. Isto nos fala que somente o servo de Deus pode frutificar neste mundo estéril, pois só ele tem a vida eterna. Devemos frutificar e nosso fruto deve ser permanente.

- O servo do Senhor é um ser fecundo, que produz o fruto do Espírito, que frutifica como determinado pelo seu Criador (Gn.1:28), que tendo recebido a semente, por ser uma boa terra, muito fruto produz para a glória de Deus (Mt.13:23; Jo.15:16). Débora não só buscou a Deus, não só tinha mensagens para o povo, como também foi importantíssima para que o povo tivesse a necessária disposição, a coragem indispensável para enfrentar o inimigo e vencê-lo. Débora conseguira, assim, obter para o povo um sossego de quarenta anos (Jz.5:32). Temos conseguido trazer o repouso para os homens e mulheres que estão à nossa volta? Temos conseguido levar a paz do Senhor para aqueles que nos cercam, como nos manda o Senhor em Mt.10:12,13?

- A “abelha-rainha”, também, tem apenas um tipo de alimento: a geléia real, que é produzida pelas abelhas operárias. Isto nos lembra que o servo de Deus deve ter apenas um único alimento: o cumprimento da Palavra de Deus, o pão que desceu do céu. “A minha carne verdadeiramente é comida, e o meu sangue verdadeiramente é bebida”, disse o Senhor Jesus (Jo.6:55). Não falava o Senhor de Seu corpo físico, nem tampouco apenas dos elementos da ceia do Senhor, mas, sim, de fazer a vontade de Deus, de seguir a Sua Palavra, pois, como dissera Jesus noutra oportunidade: “A minha comida é fazer a vontade daquele que Me enviou e realizar a Sua obra”(Jo.4:34). Como o apóstolo Paulo explanaria tempos depois: “…o Reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo”(Rm.14:17). Qual tem sido o nosso alimento diário?

- Por fim, ainda falando em colméias, lembremo-nos dos zangões, as abelhas macho, cuja única função era a de fecundar a rainha. “…Os machos podem entrar em qualquer colméia ao contrário das fêmeas. A única missão dos machos é fecundar a rainha.(…). Depois de cumprirem essa missão, eles não são mais aceitos na colméia. No fim do verão, ou quando existe pouco mel na colméia, as operárias fecham a porta da colméia e deixam os machos morrerem ao frio e à fome.…” (Abelha. end.cit.).

- Nos dias de Débora, parece mesmo que os varões eram quase que só “zangões”, ante a sua frouxidão e falta de disposição em servir a Deus e nEle buscar coragem. Os “zangões” não têm colméia fixa, vivem de um lado para o outro, sem parada certa e nada mais fazem senão fecundar a rainha. São despidos de defesa pessoal e somente o mais hábil deles consegue voar a ponto de poder fecundar a abelha-rainha. Depois que fecundam a rainha, perdem a sua função, são banidos do grupo e, quando há falta de mel ou quando se encerra o verão, não conseguem mais entrar na colméia.

- Os zangões falam-nos daqueles que não têm firmeza espiritual, dos tímidos sobre os quais já dissertamos supra. Triste é ser “zangão” no meio do povo de Deus. O “zangão” não tem firmeza, vive de um lado para outro, servindo apenas para a frutificação dos outros, mas não tendo qualquer vida espiritual própria. Na dificuldade, morre, porque não tem raiz em si mesmo, porque não tem vida abundante(Mt.13:20-22). Quando acabar o verão, ou seja, quando vier o arrebatamento da Igreja, por causa de sua negligência espiritual, de sua timidez, será mantido do lado de fora da cidade celeste(Mt.25:3,8,10-12). Que não sejamos “zangões”, amados irmãos!

V – O QUE APRENDEMOS A FAZER COM DÉBORA

- Como temos feito em todas as lições, investiguemos agora o que podemos aprender com Débora para aprimorarmos o nosso caráter cristão.
  “Coragem” é uma atitude que vem do interior, do âmago do ser humano, uma disposição de enfrentar as oposições levantadas pelo inimigo, de demonstrar confiança em Deus e em Suas promessas e, diante disto, fazer aquilo que é da vontade do Senhor, mesmo que contrarie a razão, a lógica e a vontade própria. Coragem é, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, “firmeza de espírito para enfrentar situação emocionalmente ou moralmente difícil”.

- Ora, na vida de Débora, vemos esta virtude bem delineada. Num instante de fracasso espiritual, em que o povo estava há décadas vivendo no pecado, misturando-se com a idolatria dos povos que viviam no meio dos israelitas, Débora resolveu dedicar-se a Deus e a viver em santidade, a ponto de se tornar uma profetisa e, depois, uma juíza em Israel, u’a mulher que se destacava numa sociedade machista. Assim também, nós, que servimos a Deus no meio de uma geração perversa e corrompida, devemos, também, brilhar como astros no mundo, devemos refletir a glória do Senhor, sermos testemunhas de Jesus Cristo, andando contra o curso deste mundo e, “de coração inteiro” (a palavra “coragem” vem de “cor”, que, em latim, significa coração) servir ao Senhor.

- Mas, com Débora, também aprendemos a dar a prioridade às coisas de Deus. Débora é identificada como “mulher profetisa”, ou seja, tinha em primeiro plano o seu relacionamento com Deus. Comungava com o Senhor dos Seus segredos, tinha intimidade com Deus, buscava, em primeiro lugar na sua vida, ter um papel determinado por Deus na sociedade. “Buscar primeiro o reino de Deus e a sua justiça” é o que deve fazer cada servo do Senhor, seguindo, assim, o exemplo deixado por Débora.

- Mas Débora, apesar de pôr o seu relacionamento com Deus em primeiro plano, de ter a busca do Senhor a sua principal ocupação, também nos dá uma lição a respeito não nos esquecermos de nossa posição diante da sociedade, de respeitarmos a cultura do povo onde vivemos, naquilo, obviamente, que não contraria a Palavra do Senhor. Débora era “mulher profetisa”, mas não deixava de assumir a sua condição de “mulher” bem assim o seu papel de “mulher de Lapidote”.

- Débora não negou a sua femininidade, nem tampouco a sua condição de mulher de Lapidote, apesar de ser profetisa e juíza de Israel. Embora soubesse que havia sido levantada como “mãe em Israel”, Débora jamais negou a sua posição social, o que, infelizmente, muitos não têm feito. Tanto assim é que, no momento de libertar a Israel, chamou Baraque que, como homem, tinha condições de comandar o exército na guerra, função que não era possível Débora assumir e, mesmo quando Baraque pediu que Débora fosse com ele, não assumiu para si o comando, como também não foi a mulher que obteve a honra militar. Que lição para os nossos dias!

- Devemos dar prioridade à obra de Deus, buscar primeiro o reino de Deus, mas não devemos nos descuidar dos papéis que temos na sociedade, papéis estes, aliás, que nos foram dados pelo próprio Senhor, que nos fez nascer em uma dada sociedade, bem como ocupar esta ou aquela posição. Como “mulher” e como “mulher de Lapidote”, Débora tinha responsabilidades que eram de indispensável cumprimento, até porque, se Débora não se portasse devidamente como u’a mulher e não tivesse um bom testemunho conjugal diante de Lapidote, jamais poderia julgar a Israel ou ser profetisa.

- Muitos têm negligenciado, “por causa da obra de Deus”, os seus papéis sociais, a começar pelos papéis familiares e o resultado disto outro não é senão o fracasso de seu ministério. Quem não consegue governar bem a sua casa, como poderá governar a casa de Deus (I Tm.3:4,5). Entretanto, contam-se às centenas, quiçá milhares, aqueles obreiros que têm feito perecer os seus ministérios porque descuidaram de cuidar de seus lares. Aprendamos com Débora: sejamos “profetisa”, mas não deixemos de ser “mulher” e “mulher de Lapidote”.

- Débora também ensina-nos muito a respeito da imparcialidade. Sendo juíza, Débora não podia fazer acepção de pessoas (Dt.16:19; II Cr.19:7). Efetivamente, Débora demonstrou ser imparcial. Convocou Baraque e lhe mandou libertar o povo, mas, ante a sua frouxidão, não deixou de lhe dizer que iria vencer, mas perderia a honra da vitória para u’a mulher. Também, em seu cântico, não tratou a todos igualmente, porque Israel fora liberto, mas, antes, louvou aqueles que expuseram suas vidas em risco, os corajosos, censurando os que haviam se acovardado, nominando-os sem qualquer favoritismo, tanto que Meroz, cidade da tribo de Baraque, foi alvo de u’a maldição dura.

- Com Débora, também, aprendemos a lição do discernimento espiritual. Débora tinha o Espírito Santo e tudo discernia espiritualmente (I Co.2:11-16). Assim, em seu cântico, vemos que louvou ao Senhor não por causa da vitória militar obtida, mas porque o povo havia se oferecido voluntariamente, ou seja, por causa da disposição firme de coração do povo em servir ao Senhor, disposição esta que fora o ponto inicial da vitória exterior obtida. De igual modo, ao censurar os que se negaram a ir à guerra, Débora aponta fatores internos, espirituais. Temos este discernimento espiritual, ou nos comportamos como verdadeiros homens naturais, julgando apenas segundo a aparência?

- Débora, também, ensina-nos a lição do companheirismo, do amor fraternal. Segundo vemos do relato bíblico, Débora não se negou a acompanhar Baraque, ainda que fosse dele a tarefa de comandar o exército e libertar o povo de Israel. Poderia ficar debaixo da sua palmeira entre Ramá e Betel, nos montes de Efraim, já que não era sua a tarefa, conforme a mensagem do Senhor, mas, ante o pedido de Baraque, sentiu amor fraternal e fez companhia ao exército, embora não tenha guerreado propriamente, vez que isto não era da sua alçada. Mas o fato de ir até um campo de batalha, sendo u’a mulher de certa idade, demonstra como ela era companheira e disposta a ajudar aqueles que se encontravam necessitando de apoio moral. Temos sido companheiros dos nossos irmãos? Temos nos ajudado uns aos outros?

VI – O QUE APRENDEMOS A NÃO FAZER COM DÉBORA

- O relato da vida de Débora é muito sucinto, de modo que quase não podemos encontrar qualquer falha em sua conduta. Entretanto, como bem sabemos, só uma pessoa não teve falhas em toda a história sagrada: nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.

- Ainda que entendamos que a situação vivida por Israel era extremamente difícil nos dias da dominação de Jabim, o fato é que a Bíblia nos fala que todo o povo tinha de subir até os montes de Efraim, entre Ramá e Betel, para levar as causas para serem julgadas por Débora, que habitava debaixo de suas palmeiras (Jz.4:5).

- Débora, portanto, era uma pessoa pouco acessível, que não ia ao encontro do povo, mas o povo é quem tinha de subir até os montes de Efraim. Como nos ensina K.A. Kitchen, “…a região no centro-oeste da Palestina, que caiu por sorte a Efraim, é, em sua maior parte, relativamente terreno montanhoso, com melhor precipitação chuvosa que Judá, e com alguns bons solos.(…). Os efraimitas tinham acesso direto, ainda que não muito fácil, até o grande tronco de estradas norte-sul, que atravessa a planície ocidental…’ (Efraim(geográfico). In: J.D. Douglas. O novo dicionário da Bíblia(São Paulo: Vida Nova, 1990), v.I, p.462).

- Débora, em vez de ir ao encontro dos necessitados, preferia desfrutar dos bons solos de suas palmeiras, enquanto o povo tinha de sofrer para ir ao seu encontro, entre as montanhas de Efraim. Os juízes normalmente iam ao encontro do povo para fazer seus julgamentos (cfr.I Sm.7:15-17), mas Débora preferia a comodidade de suas palmeiras, instituindo uma inacessibilidade.

- Devemos ser acessíveis aos que necessitam de nós, devemos “descer do pedestal”, da “comodidade da palmeira”, da “cavalgadura das jumentas brancas” (Jz.5:10) para ir ao encontro daqueles que tanto estão a precisar de nossos talentos, de nossos dons espirituais e naturais. Jesus ia ao encontro dos publicanos, pecadores e meretrizes (Mc.2:15,16), porque sabia que os doentes precisam de médico (Mc.2:17) e que o médico deve ir ao seu encontro e não o contrário.

- No entanto, nos dias em que vivemos, mais e mais as pessoas habitam debaixo das palmeiras, no cume dos montes de Efraim, atendendo apenas aqueles que, além de toda a necessidade, conseguirem transpor os obstáculos do terreno montanhoso.Não podemos ser inacessíveis, pois dependemos uns dos outros para seguirmos nossa caminhada rumo ao céu, não somos melhores do que os outros, pois, tanto os que estavam nos montes de Efraim, como os demais se encontravam na mesma situação de opressão e sofrimento sob Jabim, rei de Hazor. Por que, então, ser inacessível? Por que gerar uma “burocracia eclesiástica”?

- Tamanho era o apego de Débora às palmeiras entre Ramá e Betel, que Baraque, em sua frouxidão, condicionou sua ida à guerra ao deslocamento de Débora para o monte Tabor e, depois, para o ribeiro de Quisom. Débora acabou cedendo, resolveu fazer companhia a Baraque, abandonando a inacessibilidade, o que foi fundamental para o moral da tropa e para que se tivesse a vitória. Que bom seria que os inacessíveis de hoje seguissem este gesto de Débora e saíssem de seus “gabinetes refrigerados”, de suas “redomas de vidro” (algumas até literais…) e fossem ao encontro dos necessitados, daqueles que tanto precisam de ajuda e de apoio. A vitória seria, certamente, como aconteceu com Israel, do povo de Deus. Neste sentido, aliás, o início do cântico de Débora serve para ela própria, na medida em que, como mulher profetisa e juíza em Israel, pôs-se à frente do povo para a batalha.

- Outro contra-exemplo que Débora nos dá está vinculada a esta sua inacessibilidade. Sendo u’a mulher profetisa, Débora não poderia trazer a mensagem de Deus tão somente àqueles que a procuravam. Fazia-se necessário que se falasse da justiça do Senhor não só aos que conseguiam transpor os obstáculos dos montes de Efraim, mas também aos demais, que também precisavam ouvir algo da parte de Deus. Débora, porém, não tinha ido ao encontro do povo, calava-se, assim, na maior parte do tempo de seu ministério.

- Não é por outro motivo que, em seu cântico, Débora apresenta uma conclamação do Senhor a todos quantos se assentavam em juízo: “Onde se ouve o estrondo dos flecheiros, entre os lugares onde se tiram águas, ali falai das justiças do Senhor, das justiças que fez às Suas aldeias em Israel; então, o povo do Senhor descia às portas”(Jz.5:11).

- Ora, se em plena época dos juízes em Israel, era dever de cada um não se calar, mas falar das justiças do Senhor seja no lugar onde se encontravam os distribuidores de água, local freqüentado pelas pessoas mais simples e humildes, locais onde se aglomerava o maior número de pessoas, que diremos dos nossos dias, dias da dispensação da graça, quando há uma expressa ordem de Cristo para pregarmos o Evangelho para toda a criatura, Evangelho que é o “poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego, porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé” (Rm.1:16,17a)?

- Débora não poderia ter se mantido calada a maior parte do tempo, falando apenas àqueles que se dirigiam à região das palmeiras. Era necessário que também tivesse descido aos montes e anunciado, ao longo do caminho, bem como no lugar de distribuição de água, a respeito das justiças do Senhor, justiças que eram referentes a todas as aldeias de Israel, não apenas aos bons solos entre Ramá e Betel. Não nos calemos, mas, antes, preguemos o Evangelho a tempo e fora de tempo (II Tm.4:2), ainda mais quando sentimos que já se aproxima o fim.

- Débora precisava se despertar (Jz.5:12), assim como Baraque tinha de se levantar. Outro contra-exemplo dado por Débora é o sono espiritual, a falta de iniciativa para dar cabo da opressão. “Desperta, ó tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos, e Cristo te esclarecerá” (Ef.5:14). Muitos se encontram sonolentos na atualidade, entorpecidos pelas coisas desta vida, pela comodidade e não conseguem sentir o clamor do povo por salvação e libertação. Devemos nos levantar, devemos nos despertar e fazer a obra do Senhor, enquanto é dia, porque a noite vem quando ninguém mais pode trabalhar (Jo.9:4). Não temos outra coisa a fazer senão, como as abelhas operárias, trabalhar para o engrandecimento de nossa “colméia”, ou seja, do reino de Deus. Deixemos de lado a sombra das palmeiras, os bons solos de Ramá e Betel e vamos às águas, onde muitos estão sedentos da Palavra do Senhor. Estamos dispostos?